Dois assuntos, de forma rápida, eu ando ou meio sem assunto, ou meio sem tempo atualmente. Primeiro: parece que a crítica Bárbara Heliodora está em vias de aposentar-se. Ué, e por que demorou tanto? Tirando a questão dos males e dos bens (e bota males nessa conta) que essa senhora fez com seus textos sobre o teatro carioca esses anos todos, vai daqui a esperança que não tenhamos que engolir outro dono da verdade daqui pra frente. Um crítico de teatro vale, salvo engano, pelo que vale o jornal onde ele publica. Se o jornal é um só e é O Globo, imaginem o quanto vale essa opinião. Quando eu cheguei no Rio de Janeiro, no final dos anos 70 (**), quem mandava era o Maksen Luiz, porque quem mandava era o Caderno B do Jornal do Brasil. O Maksen escrevia confuso pra burro (ainda escreve) e eu, do alto da minha ignorância alemparaibana de 19 anos de idade, não conseguia atinar porque davam tanta importância ao que ele publicava. Muito mais tarde é que eu entendi: não era problema dele, era problema dele e de quem dava moral a ele (o jornal e os leitores do jornal). Depois o JB virou on line, o Maksen ainda tem um blog onde desfila suas críticas incompreensíveis, mas como ninguém dá bola, acabou-se o problema. Agora essa senhora. Quando o Maksen ruiu de vez, ela (a quem já se dava muita bola) ganhou de presente o lugar. Como na cidade só tem o jornal onde ela escreve (tem uns outros, mas que o pessoal de teatro não dá moral pra esses outros, nem os artistas, nem os espectadores) tudo o que ela escreve de bom ou de mal tende a virar lei (e bota mal nisso). Então, não é um problema dela, é um problema dela e nosso, que lemos, que avaliamos, que recomendamos o que ela escreve. E a opinião que não tem concorrência é a pior ditadura que estamos construindo no Brasil Novo. De repente agora, quando aos cento e noventa e seis anos e vinte e quatro minutos essa senhora cansou-se de brincar de teatro, ou de crítica de teatro, a gente entra numas que a pluraridade de opiniões não faz mal. Quem sabe? Tem aí a internet, falam que a internet está mandando ver. O diabo é que com o nosso instinto de manada fica difícil. Vamos sempre em bando pra um lugar só. Imagina se resolve ir a manada toda de volta pro blog do Maksen outra vez?
O segundo assunto renderá, darei só uma palinha: estive na MEI, tentando abrir uma MEI e me deparei com as idiossincrasias da MEI. Como então a legislação brasileira ainda não percebeu o que é a profissão de ator no Brasil em plenos anos dois mil? Precisa vir um historiador, um sindicalista, um professor de teatro explicar essas coisas pros legisladores. No Brasil, ator com carteira assinada, só tem na TV Globo (e mesmo assim não são todos) e nalgum musical mais entusiasmado. O resto é tudo freela, ou recebe por firma, na base das notas frias, quentes e mornas, ou como conseguir receber que o problema é dele e é cada um por si. Era hora de a legislação dar conta dessa realidade. Não será fácil. Ainda mais que, além do mais, o cara hoje é ator, amanhã é dono da produção, depois da manhã é pintor de cenário, escritor, diretor de cena, encenador, coreógrafo, maquiador, compositor, arranjador e fazedor de cafezinho nas horas vagas.
(**) - Ver comentário de Willian Taranto
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Agora vem uma caça às bruxas. Bem a propósito na data de hoje. Atiram nos pobres dos atores que se manifestam a favor das manifestações. Nem tão pobres assim, reconheço. Alguns a gente não entende o que fazem lá, alguns a gente suspeita que querem outra coisa. Mas é direito deles participar. Ou não? E só por que o cara trabalha pra uma empresa, não quer dizer que ele comungue das opiniões dos donos da empresa. Ou dos pais e avós e amigos dos donos da empresa. É meio absurdo isso. É como chamar de nazista o empregado da Wolkwagen só porque trabalha lá. Já é tão complicada a profissão de ator neste país, agora o sujeito não pode ter opinião? Desconfiar das intenções de um e de outro per si, tudo bem. Mas botar no mesmo saco eu e o Tony Ramos, só por causa da profissão na carteira de trabalho, é injusto com nós dois. Eu então sou mais vendido que o Tony Ramos porque ele pelo menos só trabalha pra uma e eu trabalho pra qualquer uma. E o problema, se me permitem meter a colher, nem é com a Globo. A Globo faz a dela. Ah, eles sonegam impostos. Mas os clubes de futebol também sonegam e ninguém chama o Romário de vendido por causa disso. Ah, mas eles mandam no Brasil. Mas o que não mandaria a Record, o Sílvio, a Band, qualquer uma, se tivesse o monopólio de opinião que a Globo tem? Não seria melhor voltar então os nossos canhões enfurecidos contra o monopólio de opinião? Seja de quem for? É uma covardia bater nos atores, nos cantores, nos biógrafos para defender a democracia. Coragem boa seria bater nos generais, coronéis, capitães e asseclas da última ditadura que, estes sim, em grupos organizados, mataram, torturaram e vilipendiaram os direitos civis, as opiniões e as pessoas deste país.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Será?
Um amigo me disse que o número de projetos inscritos para a Lei Rouanet diminuiu muito nesse começo de ano. Vou verificar isso. Mas a simples hipótese me provoca uma meia dúzia de ilações. Na verdade, nos últimos anos o número de projetos inscritos na Rouanet vinha aumentando. O número de peças que conseguem patrocínio depois de obter a autorização legal é que não acompanha o ritmo. Talvez as pessoas estejam percebendo que não adianta ter a autorização de captação pela Lei. Precisa ter quem se interesse em patrocinar. Já vimos aqui que a maioria das empresas que patrocinam com mais frequência o teatro utilizando a Rouanet querem projetos estrelados por artistas de televisão. Também a bem da verdade, não sei se é exatamente isso. Se continuamos no Brasil, e parece que é onde estamos, a maioria dos projetos aprovados que consegue dinheiro deve ser a daqueles que conhecem alguém que conhecem alguém que conhecem alguém que conhecem alguém que têm um contato com os patrocinadores. Esses atravessadores são os primeiros de qualquer lista. Os verdadeiros ministros e secretários de cultura são esses senhores que decidem para quais projetos vão prioritariamente as verbas de impostos captados nessas empresas. O que sobra sim, é disputado à tapa por todo o resto e aí certamente o critério de quem tem o elenco mais "estrelado" começa a valer. Daí que é possível que as pessoas tenham se cansado desse troço e esse ano estejam abarrotando os editais com seus projetos na esperança de uma disputa mais "democrática". Não sei se essas pessoas se iludem porque querem ou porque não conseguem enxergar que continuamos no Brasil. Muitos desses editais, com suas comissões julgadoras secretas e sua lista de critérios de avaliação confusas, parecem na verdade uma forma sub-reptícia de repetir o mesmo esquema do favorecimento aos conhecidos dos conhecidos dos conhecidos antes de todo o resto. Mas é possível que amanhã alguém melhore algum aspecto da Rouanet e a enxurrada de projetos volte para o lado de lá outra vez. E vamos assim, seguindo essa maré de idas e de voltas que não levam a lugar nenhum.
segunda-feira, 26 de março de 2012
Sumiço...
Tenho andado ocupado demais desde a última postagem, não tenho tido tempo de atualizar os números das estréias, temporadas, etc, que embasavam a maioria dos meus comentários. Por outro lado, estou pobre pobre pobre e toma tempo sobreviver. Mas ainda não morri, parece. Estou vendo a bagunça em torno do ISS municipal, vontade de assistir às reuniões, palpitar mais... Mas um pouco já se antevia o problema aqui (eu sou vidente, acreditem!). Não há dinheiro que baste se não houver política que reflita. O teatro mudou, a produção do teatro mudou, a televisão entrou mais forte do que nunca nos últimos anos atraindo milhares de novos atores para o "mercado", gente que não tem onde trabalhar e vai desaguar no teatro, onde inventam projetos, autores, diretores, produtores... Por outro lado, o dinheiro público que começou a entrar e domina a produção de teatro no Brasil fez tudo ficar pelo menos o dobro do preço que era. Ou seja, tem muito mais projetos, muito mais caros e o dinheiro não acompanhou essa marcha (e vai acompanhar como, meu Deus?). Por outro lado, a bilheteria nunca significou tão pouco na contabilidade das produções e nunca representou tão pouco na carreira dos espetáculos (os atores estão ali para aparecer para a televisão, que é onde se ganha destaque e dinheiro de verdade, todos para a tevê, todos para a tevê!!!). A bilheteria caiu não só porque não interessa aos atores que não se interessam em viver de teatro, como por causa da grana ser pública - já que o dinheiro é do povo, o governo quer o povo no teatro (e com razão) e já que o povo é pobre, não se pode cobrar nada muito caro dos pobres. É isso, ou mais ou menos isso, o resto é derivação em cima disso. Se puxar a linha a partir daí o novelo desenrola, se ficar arrumando paliativo pra montar o projeto da vez, não vai dar certo de novo. O sujeito leva dez anos pra conseguir patrocínio pra peça dele, quando consegue fica no máximo dois meses e meio em cartaz (os números, que falta me fazem os números, mas está provado que é isso, ou mais ou menos isso). Se cada brasileiro fizer a sua peça democratiza. O problema é que não tem teatro nem público pra tanta democracia . Mas uns estão ganhando muito dinheiro com a bagunça ("uns", não "dois" nem "três", "uns"!), perguntem a quem está ganhando com a bagunça se quer continuar ganhando ou se quer democratizar alguma coisa.
domingo, 25 de setembro de 2011
ATORES
Ainda não sei a média de estréias do ano aqui no Rio. O mês que registra menos estréias de peças adultas até agora é julho, com 15 estréias. Os outros têm 17, 20, 23... Como só conto as estréias dos espetáculos para adultos (o jornal não dá as estréias dos infantis) e como julho é um mês de férias e como nas férias devem estrear vários infantis, não creio que, no geral, fique este mês longe daqueles outros no tocante ao número de peças novas que entram em cartaz na nossa cidade. Imagino que aconteça alguma coisa parecida com dezembro, quando a maioria dos espetáculos adultos dá uma parada ou acaba. Imagino, não tenho certeza. Um dia as conjecturas desse blog vão virar uma pesquisa de verdade e bem feita. Então saberemos.
Para não lidar com muitos números imaginários, já que eu realmente não sei nada dos infantis, vou botar uma média de espetáculos por mês qualquer, contando só os adultos que estréiam. Digamos os mesmos 15 de julho. Vezes doze são 180 espetáculos/ano. Até agora, na listinha que tenho feito, contei uns 250 títulos diferentes de peças em cartaz na cidade. Estamos no final de setembro. Quer dizer que pelo menos a metade disso é de peças novas. Então, ao longo do ano inteiro, não é demais estimar uns 360 títulos diferentes de espetáculos de teatro adulto acontecendo durante todo este nosso 2011.
Na minha listinha de 250 títulos adultos (que tem uma grande lacuna entre fevereiro e março, putz!, vai ficar assim por enquanto) conto 38 monólogos e 40 peças para dois ou três atores no máximo. Quer dizer que 30 por cento das peças em cartaz na cidade não têm mais do que três atores nos seus elencos. Calculando que as outras 70 por cento empreguem 4 e somando tudo, dá que o teatro carioca utilizou, até o dia de hoje, uns 900 atores nas suas peças para adultos. E empregará, até o final do ano, uns 1300, aproximadamente, continuando nessa mesma proporção.
Embora não tenha um número mais preciso dos infantis (quantos estréiam, com quantos atores e outras) dá pra fazer uma aproximação. Se o jornal estiver certo, há praticamente 1 espetáculo infantil na cidade para cada 2 adultos. Então é possível que os espetáculos infantis empreguem um número igual à pelo menos a metade do número de atores profissionais do teatro adulto. Alguém pode ponderar quanto a existência de uma certa população de amadores e estudantes nos elencos infantis. É provável. Mas também os infantis montam menos monólogos e peças com pouca gente. E mesmo considerando outro fenômeno, que na minha época era comum entre os atores, não sei se hoje ainda é, ou seja, de atores que marcam presença num espetáculo para crianças à tarde e noutro para gente grande de noite, dá pra botar aí uns 600 atores ao longo do ano, empregados em peças infantis.
Somando tudo temos 1900 atores circulando no teatro carioca este ano. Querem dois mil? Tudo bem vamos botar uns dois mil.
Agora o outro lado.
Uma única escola de teatro da nossa cidade, O Tablado, registrou para as suas 800 vagas no ano passado um total de mais de 1800 inscritos. Um amigo me disse que o SATED-RJ estimava, há uns cinco anos atrás, em 11 mil a população ativa de atores no Rio com registro profissional. E a Rede Globo de Televisão mantém uma relação de atores que conta com mais de 20 mil profissionais cadastrados (mas não em ativa, trata-se de uma espécie de “banco de atores”). Outra: circula uma antiga estimativa que considera em 500 o número médio de atores em atividade remunerada por dia no Rio (isto é, se você pensar exclusivamente no dia de hoje, haveria no máximo 500 atores efetivamente trabalhando no teatro, tevê, cinema e o escambau a quatro).
Seja lá como for, embora os meus números não sejam exatos, a realidade estimada é bastante contundente: ser ator no Rio de Janeiro de hoje é um susto, uma peregrinação, um perrengue. Há gente demais para trabalho de menos.
E ainda nem consideramos o seguinte.
Imagine que as peças nessa cidade ficam no máximo dois meses em cartaz (essa é a média). Imagine que a maior parte das televisões abertas contrata por seis a oito meses e a cada não sei quantos anos. Imagine que um filme paga um mês de trabalho e olhe lá. Imagine as tevês a cabo e mídias alternativas não garantem três meses de trabalho. Você passa, portanto, ator, a maior parte do seu ano sem trabalhar. É fato. E a remuneração?
A maior parte dos atores brasileiros que consegue trabalho consegue este trabalho fazendo teatro. As emissoras de televisão também empregam bastante gente. Mas o teatro carioca usa uns 2 mil atores/ano e o teatro paulista usará entre 3 a 4 mil. E quantos atores trabalham nos outros estados brasileiros? Ainda que se esforçassem muito, e este não é o caso, as emissoras de tevê não empregariam tanta gente. O teatro é uma possibilidade de se produzir com menos dinheiro e os atores podem tentar se virar por aí. Mas o que se ganha é pouco. Mesmo no melhor dos cenários, isto é, num grande espetáculo com um patrocínio polpudo, se a peça sair de cartaz entre a trigésima segunda e a trigésima sexta sessão, como muito acontece, como viver o resto do ano? Pagar as contas, as prestações, o plano de saúde?
Parece haver uma tendência no Ministério da Cultura em considerar o teatro como um tipo de “evento”. Devido a que as peças não duram mesmo e que os patrocínios são dados como se fossem para uns shows e coisas do gênero, que duram pouco e (ao contrário dos shows) nem têm tanto público assim. Pode ser por isso que se pulveriza o (ainda escasso) patrocínio, para fazer cada vez mais peças com menos dinheiro possível. É um tipo de pensamento que transforma a conseqüência em causa, sem se perguntar por que tudo isso começou, como chegou a esse estado e se isto é, de fato, o natural da coisa. Pior ainda somos nós, atores e produtores, que consideramos boa a condição de produzir com trinta tostões (já que em todo caso, quando há patrocínio, “não é dinheiro nosso, é do governo”) vender a cinco merréis e mostrar a cara para nossos amigos e amigos dos nossos amigos que, de resto, nem ingresso pagam.
Alguém parece ter esquecido que as platéias de teatro se formam ao longo do tempo. Que uma peça precisa existir durante várias temporadas para consolidar seu público, sua importância, seu sentido enquanto empreendimento. As políticas de cultura precisam pensar nas enormes massas de atores desempregados, de onde vêm e o que as torna tão comuns no cenário urbano moderno.
Plantar teatro não é exatamente como pescar. Não dá para esperar o tempo da desova. Ou se há desova no Rio, é preciso deslocar a pescaria para outro lugar. Não é um esforço que dependa somente dos governos, é bem verdade. Os milhões de pescadores, entre empregados e desesperados, também podem, ou deveriam, contribuir com a nova política de arrecadação e distribuição do pescado. Para isso, um primeiro passo poderia ser a desmistificação da profissão de ator. Não é verdade que somos todos lindos e que ganhemos milhões. E nada garante que vamos ganhar amanhã.
Para não lidar com muitos números imaginários, já que eu realmente não sei nada dos infantis, vou botar uma média de espetáculos por mês qualquer, contando só os adultos que estréiam. Digamos os mesmos 15 de julho. Vezes doze são 180 espetáculos/ano. Até agora, na listinha que tenho feito, contei uns 250 títulos diferentes de peças em cartaz na cidade. Estamos no final de setembro. Quer dizer que pelo menos a metade disso é de peças novas. Então, ao longo do ano inteiro, não é demais estimar uns 360 títulos diferentes de espetáculos de teatro adulto acontecendo durante todo este nosso 2011.
Na minha listinha de 250 títulos adultos (que tem uma grande lacuna entre fevereiro e março, putz!, vai ficar assim por enquanto) conto 38 monólogos e 40 peças para dois ou três atores no máximo. Quer dizer que 30 por cento das peças em cartaz na cidade não têm mais do que três atores nos seus elencos. Calculando que as outras 70 por cento empreguem 4 e somando tudo, dá que o teatro carioca utilizou, até o dia de hoje, uns 900 atores nas suas peças para adultos. E empregará, até o final do ano, uns 1300, aproximadamente, continuando nessa mesma proporção.
Embora não tenha um número mais preciso dos infantis (quantos estréiam, com quantos atores e outras) dá pra fazer uma aproximação. Se o jornal estiver certo, há praticamente 1 espetáculo infantil na cidade para cada 2 adultos. Então é possível que os espetáculos infantis empreguem um número igual à pelo menos a metade do número de atores profissionais do teatro adulto. Alguém pode ponderar quanto a existência de uma certa população de amadores e estudantes nos elencos infantis. É provável. Mas também os infantis montam menos monólogos e peças com pouca gente. E mesmo considerando outro fenômeno, que na minha época era comum entre os atores, não sei se hoje ainda é, ou seja, de atores que marcam presença num espetáculo para crianças à tarde e noutro para gente grande de noite, dá pra botar aí uns 600 atores ao longo do ano, empregados em peças infantis.
Somando tudo temos 1900 atores circulando no teatro carioca este ano. Querem dois mil? Tudo bem vamos botar uns dois mil.
Agora o outro lado.
Uma única escola de teatro da nossa cidade, O Tablado, registrou para as suas 800 vagas no ano passado um total de mais de 1800 inscritos. Um amigo me disse que o SATED-RJ estimava, há uns cinco anos atrás, em 11 mil a população ativa de atores no Rio com registro profissional. E a Rede Globo de Televisão mantém uma relação de atores que conta com mais de 20 mil profissionais cadastrados (mas não em ativa, trata-se de uma espécie de “banco de atores”). Outra: circula uma antiga estimativa que considera em 500 o número médio de atores em atividade remunerada por dia no Rio (isto é, se você pensar exclusivamente no dia de hoje, haveria no máximo 500 atores efetivamente trabalhando no teatro, tevê, cinema e o escambau a quatro).
Seja lá como for, embora os meus números não sejam exatos, a realidade estimada é bastante contundente: ser ator no Rio de Janeiro de hoje é um susto, uma peregrinação, um perrengue. Há gente demais para trabalho de menos.
E ainda nem consideramos o seguinte.
Imagine que as peças nessa cidade ficam no máximo dois meses em cartaz (essa é a média). Imagine que a maior parte das televisões abertas contrata por seis a oito meses e a cada não sei quantos anos. Imagine que um filme paga um mês de trabalho e olhe lá. Imagine as tevês a cabo e mídias alternativas não garantem três meses de trabalho. Você passa, portanto, ator, a maior parte do seu ano sem trabalhar. É fato. E a remuneração?
A maior parte dos atores brasileiros que consegue trabalho consegue este trabalho fazendo teatro. As emissoras de televisão também empregam bastante gente. Mas o teatro carioca usa uns 2 mil atores/ano e o teatro paulista usará entre 3 a 4 mil. E quantos atores trabalham nos outros estados brasileiros? Ainda que se esforçassem muito, e este não é o caso, as emissoras de tevê não empregariam tanta gente. O teatro é uma possibilidade de se produzir com menos dinheiro e os atores podem tentar se virar por aí. Mas o que se ganha é pouco. Mesmo no melhor dos cenários, isto é, num grande espetáculo com um patrocínio polpudo, se a peça sair de cartaz entre a trigésima segunda e a trigésima sexta sessão, como muito acontece, como viver o resto do ano? Pagar as contas, as prestações, o plano de saúde?
Parece haver uma tendência no Ministério da Cultura em considerar o teatro como um tipo de “evento”. Devido a que as peças não duram mesmo e que os patrocínios são dados como se fossem para uns shows e coisas do gênero, que duram pouco e (ao contrário dos shows) nem têm tanto público assim. Pode ser por isso que se pulveriza o (ainda escasso) patrocínio, para fazer cada vez mais peças com menos dinheiro possível. É um tipo de pensamento que transforma a conseqüência em causa, sem se perguntar por que tudo isso começou, como chegou a esse estado e se isto é, de fato, o natural da coisa. Pior ainda somos nós, atores e produtores, que consideramos boa a condição de produzir com trinta tostões (já que em todo caso, quando há patrocínio, “não é dinheiro nosso, é do governo”) vender a cinco merréis e mostrar a cara para nossos amigos e amigos dos nossos amigos que, de resto, nem ingresso pagam.
Alguém parece ter esquecido que as platéias de teatro se formam ao longo do tempo. Que uma peça precisa existir durante várias temporadas para consolidar seu público, sua importância, seu sentido enquanto empreendimento. As políticas de cultura precisam pensar nas enormes massas de atores desempregados, de onde vêm e o que as torna tão comuns no cenário urbano moderno.
Plantar teatro não é exatamente como pescar. Não dá para esperar o tempo da desova. Ou se há desova no Rio, é preciso deslocar a pescaria para outro lugar. Não é um esforço que dependa somente dos governos, é bem verdade. Os milhões de pescadores, entre empregados e desesperados, também podem, ou deveriam, contribuir com a nova política de arrecadação e distribuição do pescado. Para isso, um primeiro passo poderia ser a desmistificação da profissão de ator. Não é verdade que somos todos lindos e que ganhemos milhões. E nada garante que vamos ganhar amanhã.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Agosto
Queridos e queridas, uns comentários rápidos essa semana. Estou cheio de projetos aqui pra tocar. Dinheiro nenhum, mas o que importa? E, também, as coisas que eu digo aqui na verdade são variações em torno dos mesmos temas. Sempre dizendo a mesma coisa de modos diferentes. Mas é o tal negócio, de tanto falar e falar de novo e de novo e de novo, das duas uma: ou melhoro a minha redação, ou melhora o mundo.
Fechamos o mês de julho. A minha lista de peças (eu faço um acompanhamento de peças) tem um furo no mês de março, justamente o mês com maior número de estréias, não acompanhei como devia o mês de março. Vou tentar conseguir a relação das peças que estrearam e das que re-estrearam e das que saíram de cartaz em março desse ano. Tem algumas lacunas na minha lista. Seja como for, contei 200 peças até agora, do começo do ano até agora. Só valendo final de semana. Com outros furos, além do mês de março. Às vezes comprava o jornal de sexta, às vezes o jornal de domingo. Na maioria das vezes o jornal de domingo. E tem peça que não sai listada no jornal de domingo, mas sai no jornal de sexta. E vice-versa. Melhor assim, porque se o jornal listasse todas as peças ao mesmo tempo, não tinha lugar pra Amy.
Ah, sim, estou contando aí os infantis. Sem os infantis andamos na base de 60 peças por semana em cartaz. É razoável, suponho. Tem as de meio de semana também, essas não sei quantas somam. Ah, sim, também tem duas semanas do mês de abril que não estão na minha lista. Ou seja, minha lista é uma merda. Mas é a que temos. Ou a que eu conheço, porque talvez outros estejam fazendo esse levantamento. É razoável. Mais de 200 peças no primeiro semestre. Sabem quantas ficaram em cartaz os sete meses? Alguém arrisca? Eu digo aqui. Não é cem por cento certo, alguma delas pode não ter estado em cartaz em alguma semana que eu não cobri, nos meses de março e abril. Mas foram 5. Isso. Das mais de 200 peças adultas em cartaz no Rio de Janeiro no primeiro semestre de sete meses do ano de 2011, exatamente 5 ficaram em cartaz o tempo todo, sem tirar. Não se pode dizer que foi a minoria das peças. Minoria de 200 não é 5. 5 não é nem 5% de 200. 5 de 200 é o mesmo que nada. Mas não se preocupem. Até o final do ano esse nada tende a ficar mais nada. Pelo menos 1 dessas 5 peças saiu de cartaz no último 31 de julho. Bom, mas talvez ela volte. Sempre há esperança que volte.
As outras ficaram menos de 2 meses em média. É isso aí. Esse ano a média caiu para menos de 2 meses. Com toda a imprecisão dos meus dados, dado que sou impreciso mesmo, isso é fato: em 2011 as peças ficam menos de 8 semanas em cartaz. Em média. Também aumentou o fracionamento da semana. De modo que o número de peças pode ser bem maior do que as minhas 200. A semana de quinta a domingo ainda existe no Rio e bastante. Mas aumentam os sexta a domingo, os terça e quarta, e apareceram também muitos quinta e sexta e alguns só segunda. Sinal que as pessoas estão procurando um buraco na programação. Sinal que há buracos e mais buracos na programação. Tempo curioso. Muitos produzem para poucos verem e ninguém ficar em cartaz.
O mundaréu de peças é uma faca de dois gumes. Se fossem 200, 500, 1000 peças, mas estivessem sempre lá, um dia poderíamos assistir todas elas. Mas são poucas e fugidias. Ou você vai na estréia, ou na semana seguinte. Ou então não vai mais. A mídia não dá conta de divulgar e nem nós de anunciar. Os anúncios de jornal são impossíveis de fazer. Muito caros. Só tem um jornal na cidade, então ele cobra o que quer. E reclama que não anunciamos. Vai piorar, digo eu. Muito. O boca a boca tem que ser rápido, não pode demorar, porque não há tempo. E os artistas se dão por satisfeitos com 15 pessoas na platéia. Outro dia uma amiga me perturbou que eu tinha que ver a peça tal, que a peça tal era o máximo e a prova de que era o máximo é que estava lotando. Quantas pessoas, eu perguntei, por sessão? 50. Bom, cinqüenta é melhor do que 15, então deve ser boa mesmo.
Pra se destacar na multidão tem que ter os 7 milhões do Violinista no Telhado. Não temos. Não temos 70 mil. Não temos 7. Voltamos ao tempo do Livro de Ouro, recebi outro dia uma petição pra assinar o Livro de Ouro de uma peça de teatro. Bacana, eu pensei, coisa de aluno de escola de teatro. Não era. Ficha técnica profissional. Acho que estamos virando americanos nisso também. Nos Estados Unidos tem zilhões de Livros de Ouro produzindo peças profissionais. Alguém dirá que não é vantagem. Não com o dólar a 1 e 50.
Agora vem o FATE, da Prefeitura, com 14 milhões. Bom. 14 milhões são dois violistas e nenhum telhado. Mas é pra um monte de gatos pingados. A idéia é essa, democratizar o investimento. Boa idéia. Democracia de fudidos Municipais contra a ditadura de 3 ou 4 que pegam a maior parte do bolo Federal. É um cabo de guerra e advinha quem vai ganhar? Não serei eu, certamente. Tudo pra projeto de peça nova. Bacana. Por que as velhas ninguém viu mesmo, então vamos fazer outras, quem sabe?
O assunto é esse, é o de sempre. Mas hoje escrevi um pouco diferente de ontem e de anteontem. Ótimo, sinal de que estou melhorando como escritor.
Ou não?
Fechamos o mês de julho. A minha lista de peças (eu faço um acompanhamento de peças) tem um furo no mês de março, justamente o mês com maior número de estréias, não acompanhei como devia o mês de março. Vou tentar conseguir a relação das peças que estrearam e das que re-estrearam e das que saíram de cartaz em março desse ano. Tem algumas lacunas na minha lista. Seja como for, contei 200 peças até agora, do começo do ano até agora. Só valendo final de semana. Com outros furos, além do mês de março. Às vezes comprava o jornal de sexta, às vezes o jornal de domingo. Na maioria das vezes o jornal de domingo. E tem peça que não sai listada no jornal de domingo, mas sai no jornal de sexta. E vice-versa. Melhor assim, porque se o jornal listasse todas as peças ao mesmo tempo, não tinha lugar pra Amy.
Ah, sim, estou contando aí os infantis. Sem os infantis andamos na base de 60 peças por semana em cartaz. É razoável, suponho. Tem as de meio de semana também, essas não sei quantas somam. Ah, sim, também tem duas semanas do mês de abril que não estão na minha lista. Ou seja, minha lista é uma merda. Mas é a que temos. Ou a que eu conheço, porque talvez outros estejam fazendo esse levantamento. É razoável. Mais de 200 peças no primeiro semestre. Sabem quantas ficaram em cartaz os sete meses? Alguém arrisca? Eu digo aqui. Não é cem por cento certo, alguma delas pode não ter estado em cartaz em alguma semana que eu não cobri, nos meses de março e abril. Mas foram 5. Isso. Das mais de 200 peças adultas em cartaz no Rio de Janeiro no primeiro semestre de sete meses do ano de 2011, exatamente 5 ficaram em cartaz o tempo todo, sem tirar. Não se pode dizer que foi a minoria das peças. Minoria de 200 não é 5. 5 não é nem 5% de 200. 5 de 200 é o mesmo que nada. Mas não se preocupem. Até o final do ano esse nada tende a ficar mais nada. Pelo menos 1 dessas 5 peças saiu de cartaz no último 31 de julho. Bom, mas talvez ela volte. Sempre há esperança que volte.
As outras ficaram menos de 2 meses em média. É isso aí. Esse ano a média caiu para menos de 2 meses. Com toda a imprecisão dos meus dados, dado que sou impreciso mesmo, isso é fato: em 2011 as peças ficam menos de 8 semanas em cartaz. Em média. Também aumentou o fracionamento da semana. De modo que o número de peças pode ser bem maior do que as minhas 200. A semana de quinta a domingo ainda existe no Rio e bastante. Mas aumentam os sexta a domingo, os terça e quarta, e apareceram também muitos quinta e sexta e alguns só segunda. Sinal que as pessoas estão procurando um buraco na programação. Sinal que há buracos e mais buracos na programação. Tempo curioso. Muitos produzem para poucos verem e ninguém ficar em cartaz.
O mundaréu de peças é uma faca de dois gumes. Se fossem 200, 500, 1000 peças, mas estivessem sempre lá, um dia poderíamos assistir todas elas. Mas são poucas e fugidias. Ou você vai na estréia, ou na semana seguinte. Ou então não vai mais. A mídia não dá conta de divulgar e nem nós de anunciar. Os anúncios de jornal são impossíveis de fazer. Muito caros. Só tem um jornal na cidade, então ele cobra o que quer. E reclama que não anunciamos. Vai piorar, digo eu. Muito. O boca a boca tem que ser rápido, não pode demorar, porque não há tempo. E os artistas se dão por satisfeitos com 15 pessoas na platéia. Outro dia uma amiga me perturbou que eu tinha que ver a peça tal, que a peça tal era o máximo e a prova de que era o máximo é que estava lotando. Quantas pessoas, eu perguntei, por sessão? 50. Bom, cinqüenta é melhor do que 15, então deve ser boa mesmo.
Pra se destacar na multidão tem que ter os 7 milhões do Violinista no Telhado. Não temos. Não temos 70 mil. Não temos 7. Voltamos ao tempo do Livro de Ouro, recebi outro dia uma petição pra assinar o Livro de Ouro de uma peça de teatro. Bacana, eu pensei, coisa de aluno de escola de teatro. Não era. Ficha técnica profissional. Acho que estamos virando americanos nisso também. Nos Estados Unidos tem zilhões de Livros de Ouro produzindo peças profissionais. Alguém dirá que não é vantagem. Não com o dólar a 1 e 50.
Agora vem o FATE, da Prefeitura, com 14 milhões. Bom. 14 milhões são dois violistas e nenhum telhado. Mas é pra um monte de gatos pingados. A idéia é essa, democratizar o investimento. Boa idéia. Democracia de fudidos Municipais contra a ditadura de 3 ou 4 que pegam a maior parte do bolo Federal. É um cabo de guerra e advinha quem vai ganhar? Não serei eu, certamente. Tudo pra projeto de peça nova. Bacana. Por que as velhas ninguém viu mesmo, então vamos fazer outras, quem sabe?
O assunto é esse, é o de sempre. Mas hoje escrevi um pouco diferente de ontem e de anteontem. Ótimo, sinal de que estou melhorando como escritor.
Ou não?
quinta-feira, 23 de junho de 2011
A QUESTÃO DA QUALIDADE
Respondendo à segunda questão, de M.S. do Rio de Janeiro, que pergunta sobre a qualidade dos espetáculos, se perdemos as referências, que ele mesmo não sabe mais quando um ator é bom ou não é bom...
Acabei demorando mais do que pensava a continuar com esses últimos assuntos. Normal. Estive (e ainda estou) às voltas com a nova temporada de LINDA, no Teatro dos Quatro, tentando colocar gente lá pra assistir às terças e quartas, às 19 horas. Não é uma tarefa nada fácil. NINGUÉM mais vai ao teatro às terças-feiras, quer dizer, como parte do hábito de ir ao teatro. É quase impossível. Às quartas ainda tem um e outro, mas mesmo assim... Não faz muito tempo as pessoas viam peças de terça a domingo no Rio de Janeiro. Claro, era tudo muito diferente, parece. Tinha menos peças, os atores ganhavam menos, os produtores pegavam dinheiro emprestado em banco pra produzir e pagar depois... Mas, de trinta, vinte e cinco anos pra cá as terças caíram. E depois caíram as quartas também (em São Paulo já quase não se faz teatro às sextas, quero dizer, uma temporada de sexta a domingo em São Paulo é difícil de se encontrar). Mais tarde, com o número de espetáculos aumentando, outras peças acabaram ocupando esses antigos horários – que viraram os horários alternativos. Mais ou menos assim que se sucedeu, me corrijam os que sabem mais.
Então este hábito de ir ao teatro no meio ou no começo da semana se perdeu e hoje é uma lenha um pequeno produtor convencer algumas pessoas a ver seu espetáculo numa terça ou numa quarta num teatro da zona sul carioca. Claro, se eu fosse um artista famoso seria um pouco menos difícil. Mas mesmo assim. Um artista famoso não praticaria o meu preço, não se conformaria com apenas dois dias também. A favor do artista famoso na terça e na quarta apenas que a mídia lhe renderia um pouco mais de atenção. Todos os cadernos de cultura, rádios, tevês, etc. estão com seus olhos voltados para a cidade do fim de semana, enquanto a cidade da quarta, das terças e das segundas, fica por aí, ao léu. Agora, se os produtores em geral, mesmo os grandes, já reclamam do pouco espaço para o teatro nos meios de comunicação em relação às suas temporadas de fins de semana, imagina nós outros, ali, entre outros tantos alternativos das terças cariocas.
E a terça não é má, sabiam? É mais fácil chegar e sair de um teatro na terça do que na sexta, por exemplo. Aliás, na sexta está ficando impossível. Os produtores, programadores culturais, o secretário de cultura, ministros e outros, deveriam repensar a estratégia de distribuição da população das grandes cidades pelos pontos de cultura e diversão às sextas-feiras. Poderiam estimular a freqüência intra-bairro, o uso do transporte coletivo, rever os horários dos eventos, etc. Porque, já a partir do final da tarde e até não sei que horas da noite, a cidade simplesmente dá um nó e ninguém vai a lugar nenhum. E não é só na zona sul não, é em qualquer região, qualquer região. Confiram os borderôs. Há anos que as sextas-feiras são ruins para o teatro carioca. Já há peças por aí fazendo temporadas à paulista, de sexta à domingo. Eu sugiro que incluam a quinta e pulem a sexta. Ganhariam mais.
Mas era pra responder à pergunta do colega acima, comecei a falar da minha peça, enveredei por essa história de dias e horários e não parei mais. Ok, vou lhe dar alguma atenção no espaço de tempo que me resta (preciso voltar ao telefone e às Redes Sociais para tentar convencer umas tantas pessoas, na marra, a assistir o meu singelo espetáculo na Gávea).
A pergunta do meu amigo sobre a qualidade é porque temos chamado a atenção aqui para um possível aumento descontrolado no número de espetáculos na cidade, que poderia estar diminuindo o cuidado com a qualidade do que está sendo produzido. Meu caro L.S., não há como garantir uma relação de simples causa e efeito entre as duas coisas. Há temporadas boas e más, em termos de qualidade, alternando-se ao longo do tempo em todos os lugares do mundo. Um ano vamos bem, surge um movimento, um artista importante, uma peça nova, uma interpretação brilhante. Outro ano vamos seguindo a viagem sem nem olhar pela janela porque a paisagem não é nada atraente. As coisas são assim e não parece que, a não ser que surja uma outra renascença, deverá ser muito diferente no futuro. E isso não parece estar diretamente relacionado ao número de peças de teatro que se faz por aí. Claro, deve ter havido um aumento no número de espetáculos de oportunidade. Sem dúvida a indústria do patrocínio fomentou o surgimento de uma classe de espetáculos feitos com o único propósito de garantir uns salários e umas tantas comissões aqui e ali. Mas também é possível que muitos artistas envolvidos nesse tipo de empreitada houvessem por bem lhes garantir um mínimo de qualidade e substância artística. A meu ver o problema com o aumento na produção de peças é parecido com o aumento da população sem que se cuide, ao mesmo tempo, da infra-estrutura necessária para abrigar, alimentar e prover as novas populações de um mínimo de condições de subsistência. Este é que é o ponto.
Se as peças são boas ou não, é um pouco menos importante. Há, nos Guias Offs de teatro no Rio e São Paulo uma interessante introdução alertando que o espectador poderá, eventualmente, errar na escolha das peças que vai assistir (supondo que ele assista a mias de uma, claro). Mas está certo esse sujeito, isto faz parte da coisa. Como às vezes pagamos para ver um grande espetáculo de futebol e assistimos a uma pelada e nada mais. Porque mesmo os melhores espetáculos da cidade têm seus dias ruins, quando o ator principal não acerta uma única nota ou a bailarina tropeça na segunda cena. E, por outro lado, peças ruins também podem nos apresentar a um ator brilhante que ainda não conhecíamos ou nos revelar outros valores quaisquer. Além daquela velha discussão do que é bom para um não ser para outro e por aí vai.
O problema é não podermos ver todas essas peças e compará-las. O problema é elas não sobreviverem o suficiente para que as vejamos e para que possamos confrontar nossas opiniões sobre todas ou pelo menos sobre a maioria. Que não existam estradas que nos levem até elas, médicos que as prescrevam a nós com segurança, televisões e rádios e jornais e revistas que as divulguem, críticos que as critiquem, e, pessoas, muitas pessoas, que as assistam conosco todos os dias, de segunda a segunda, ou até que fiquemos cansados.
Quanto à qualidade dos atores, não se preocupe, eu também não sei.
Acabei demorando mais do que pensava a continuar com esses últimos assuntos. Normal. Estive (e ainda estou) às voltas com a nova temporada de LINDA, no Teatro dos Quatro, tentando colocar gente lá pra assistir às terças e quartas, às 19 horas. Não é uma tarefa nada fácil. NINGUÉM mais vai ao teatro às terças-feiras, quer dizer, como parte do hábito de ir ao teatro. É quase impossível. Às quartas ainda tem um e outro, mas mesmo assim... Não faz muito tempo as pessoas viam peças de terça a domingo no Rio de Janeiro. Claro, era tudo muito diferente, parece. Tinha menos peças, os atores ganhavam menos, os produtores pegavam dinheiro emprestado em banco pra produzir e pagar depois... Mas, de trinta, vinte e cinco anos pra cá as terças caíram. E depois caíram as quartas também (em São Paulo já quase não se faz teatro às sextas, quero dizer, uma temporada de sexta a domingo em São Paulo é difícil de se encontrar). Mais tarde, com o número de espetáculos aumentando, outras peças acabaram ocupando esses antigos horários – que viraram os horários alternativos. Mais ou menos assim que se sucedeu, me corrijam os que sabem mais.
Então este hábito de ir ao teatro no meio ou no começo da semana se perdeu e hoje é uma lenha um pequeno produtor convencer algumas pessoas a ver seu espetáculo numa terça ou numa quarta num teatro da zona sul carioca. Claro, se eu fosse um artista famoso seria um pouco menos difícil. Mas mesmo assim. Um artista famoso não praticaria o meu preço, não se conformaria com apenas dois dias também. A favor do artista famoso na terça e na quarta apenas que a mídia lhe renderia um pouco mais de atenção. Todos os cadernos de cultura, rádios, tevês, etc. estão com seus olhos voltados para a cidade do fim de semana, enquanto a cidade da quarta, das terças e das segundas, fica por aí, ao léu. Agora, se os produtores em geral, mesmo os grandes, já reclamam do pouco espaço para o teatro nos meios de comunicação em relação às suas temporadas de fins de semana, imagina nós outros, ali, entre outros tantos alternativos das terças cariocas.
E a terça não é má, sabiam? É mais fácil chegar e sair de um teatro na terça do que na sexta, por exemplo. Aliás, na sexta está ficando impossível. Os produtores, programadores culturais, o secretário de cultura, ministros e outros, deveriam repensar a estratégia de distribuição da população das grandes cidades pelos pontos de cultura e diversão às sextas-feiras. Poderiam estimular a freqüência intra-bairro, o uso do transporte coletivo, rever os horários dos eventos, etc. Porque, já a partir do final da tarde e até não sei que horas da noite, a cidade simplesmente dá um nó e ninguém vai a lugar nenhum. E não é só na zona sul não, é em qualquer região, qualquer região. Confiram os borderôs. Há anos que as sextas-feiras são ruins para o teatro carioca. Já há peças por aí fazendo temporadas à paulista, de sexta à domingo. Eu sugiro que incluam a quinta e pulem a sexta. Ganhariam mais.
Mas era pra responder à pergunta do colega acima, comecei a falar da minha peça, enveredei por essa história de dias e horários e não parei mais. Ok, vou lhe dar alguma atenção no espaço de tempo que me resta (preciso voltar ao telefone e às Redes Sociais para tentar convencer umas tantas pessoas, na marra, a assistir o meu singelo espetáculo na Gávea).
A pergunta do meu amigo sobre a qualidade é porque temos chamado a atenção aqui para um possível aumento descontrolado no número de espetáculos na cidade, que poderia estar diminuindo o cuidado com a qualidade do que está sendo produzido. Meu caro L.S., não há como garantir uma relação de simples causa e efeito entre as duas coisas. Há temporadas boas e más, em termos de qualidade, alternando-se ao longo do tempo em todos os lugares do mundo. Um ano vamos bem, surge um movimento, um artista importante, uma peça nova, uma interpretação brilhante. Outro ano vamos seguindo a viagem sem nem olhar pela janela porque a paisagem não é nada atraente. As coisas são assim e não parece que, a não ser que surja uma outra renascença, deverá ser muito diferente no futuro. E isso não parece estar diretamente relacionado ao número de peças de teatro que se faz por aí. Claro, deve ter havido um aumento no número de espetáculos de oportunidade. Sem dúvida a indústria do patrocínio fomentou o surgimento de uma classe de espetáculos feitos com o único propósito de garantir uns salários e umas tantas comissões aqui e ali. Mas também é possível que muitos artistas envolvidos nesse tipo de empreitada houvessem por bem lhes garantir um mínimo de qualidade e substância artística. A meu ver o problema com o aumento na produção de peças é parecido com o aumento da população sem que se cuide, ao mesmo tempo, da infra-estrutura necessária para abrigar, alimentar e prover as novas populações de um mínimo de condições de subsistência. Este é que é o ponto.
Se as peças são boas ou não, é um pouco menos importante. Há, nos Guias Offs de teatro no Rio e São Paulo uma interessante introdução alertando que o espectador poderá, eventualmente, errar na escolha das peças que vai assistir (supondo que ele assista a mias de uma, claro). Mas está certo esse sujeito, isto faz parte da coisa. Como às vezes pagamos para ver um grande espetáculo de futebol e assistimos a uma pelada e nada mais. Porque mesmo os melhores espetáculos da cidade têm seus dias ruins, quando o ator principal não acerta uma única nota ou a bailarina tropeça na segunda cena. E, por outro lado, peças ruins também podem nos apresentar a um ator brilhante que ainda não conhecíamos ou nos revelar outros valores quaisquer. Além daquela velha discussão do que é bom para um não ser para outro e por aí vai.
O problema é não podermos ver todas essas peças e compará-las. O problema é elas não sobreviverem o suficiente para que as vejamos e para que possamos confrontar nossas opiniões sobre todas ou pelo menos sobre a maioria. Que não existam estradas que nos levem até elas, médicos que as prescrevam a nós com segurança, televisões e rádios e jornais e revistas que as divulguem, críticos que as critiquem, e, pessoas, muitas pessoas, que as assistam conosco todos os dias, de segunda a segunda, ou até que fiquemos cansados.
Quanto à qualidade dos atores, não se preocupe, eu também não sei.
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