Um amigo me disse que o número de projetos inscritos para a Lei Rouanet diminuiu muito nesse começo de ano. Vou verificar isso. Mas a simples hipótese me provoca uma meia dúzia de ilações. Na verdade, nos últimos anos o número de projetos inscritos na Rouanet vinha aumentando. O número de peças que conseguem patrocínio depois de obter a autorização legal é que não acompanha o ritmo. Talvez as pessoas estejam percebendo que não adianta ter a autorização de captação pela Lei. Precisa ter quem se interesse em patrocinar. Já vimos aqui que a maioria das empresas que patrocinam com mais frequência o teatro utilizando a Rouanet querem projetos estrelados por artistas de televisão. Também a bem da verdade, não sei se é exatamente isso. Se continuamos no Brasil, e parece que é onde estamos, a maioria dos projetos aprovados que consegue dinheiro deve ser a daqueles que conhecem alguém que conhecem alguém que conhecem alguém que conhecem alguém que têm um contato com os patrocinadores. Esses atravessadores são os primeiros de qualquer lista. Os verdadeiros ministros e secretários de cultura são esses senhores que decidem para quais projetos vão prioritariamente as verbas de impostos captados nessas empresas. O que sobra sim, é disputado à tapa por todo o resto e aí certamente o critério de quem tem o elenco mais "estrelado" começa a valer. Daí que é possível que as pessoas tenham se cansado desse troço e esse ano estejam abarrotando os editais com seus projetos na esperança de uma disputa mais "democrática". Não sei se essas pessoas se iludem porque querem ou porque não conseguem enxergar que continuamos no Brasil. Muitos desses editais, com suas comissões julgadoras secretas e sua lista de critérios de avaliação confusas, parecem na verdade uma forma sub-reptícia de repetir o mesmo esquema do favorecimento aos conhecidos dos conhecidos dos conhecidos antes de todo o resto. Mas é possível que amanhã alguém melhore algum aspecto da Rouanet e a enxurrada de projetos volte para o lado de lá outra vez. E vamos assim, seguindo essa maré de idas e de voltas que não levam a lugar nenhum.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
segunda-feira, 26 de março de 2012
Sumiço...
Tenho andado ocupado demais desde a última postagem, não tenho tido tempo de atualizar os números das estréias, temporadas, etc, que embasavam a maioria dos meus comentários. Por outro lado, estou pobre pobre pobre e toma tempo sobreviver. Mas ainda não morri, parece. Estou vendo a bagunça em torno do ISS municipal, vontade de assistir às reuniões, palpitar mais... Mas um pouco já se antevia o problema aqui (eu sou vidente, acreditem!). Não há dinheiro que baste se não houver política que reflita. O teatro mudou, a produção do teatro mudou, a televisão entrou mais forte do que nunca nos últimos anos atraindo milhares de novos atores para o "mercado", gente que não tem onde trabalhar e vai desaguar no teatro, onde inventam projetos, autores, diretores, produtores... Por outro lado, o dinheiro público que começou a entrar e domina a produção de teatro no Brasil fez tudo ficar pelo menos o dobro do preço que era. Ou seja, tem muito mais projetos, muito mais caros e o dinheiro não acompanhou essa marcha (e vai acompanhar como, meu Deus?). Por outro lado, a bilheteria nunca significou tão pouco na contabilidade das produções e nunca representou tão pouco na carreira dos espetáculos (os atores estão ali para aparecer para a televisão, que é onde se ganha destaque e dinheiro de verdade, todos para a tevê, todos para a tevê!!!). A bilheteria caiu não só porque não interessa aos atores que não se interessam em viver de teatro, como por causa da grana ser pública - já que o dinheiro é do povo, o governo quer o povo no teatro (e com razão) e já que o povo é pobre, não se pode cobrar nada muito caro dos pobres. É isso, ou mais ou menos isso, o resto é derivação em cima disso. Se puxar a linha a partir daí o novelo desenrola, se ficar arrumando paliativo pra montar o projeto da vez, não vai dar certo de novo. O sujeito leva dez anos pra conseguir patrocínio pra peça dele, quando consegue fica no máximo dois meses e meio em cartaz (os números, que falta me fazem os números, mas está provado que é isso, ou mais ou menos isso). Se cada brasileiro fizer a sua peça democratiza. O problema é que não tem teatro nem público pra tanta democracia . Mas uns estão ganhando muito dinheiro com a bagunça ("uns", não "dois" nem "três", "uns"!), perguntem a quem está ganhando com a bagunça se quer continuar ganhando ou se quer democratizar alguma coisa.
domingo, 25 de setembro de 2011
ATORES
Ainda não sei a média de estréias do ano aqui no Rio. O mês que registra menos estréias de peças adultas até agora é julho, com 15 estréias. Os outros têm 17, 20, 23... Como só conto as estréias dos espetáculos para adultos (o jornal não dá as estréias dos infantis) e como julho é um mês de férias e como nas férias devem estrear vários infantis, não creio que, no geral, fique este mês longe daqueles outros no tocante ao número de peças novas que entram em cartaz na nossa cidade. Imagino que aconteça alguma coisa parecida com dezembro, quando a maioria dos espetáculos adultos dá uma parada ou acaba. Imagino, não tenho certeza. Um dia as conjecturas desse blog vão virar uma pesquisa de verdade e bem feita. Então saberemos.
Para não lidar com muitos números imaginários, já que eu realmente não sei nada dos infantis, vou botar uma média de espetáculos por mês qualquer, contando só os adultos que estréiam. Digamos os mesmos 15 de julho. Vezes doze são 180 espetáculos/ano. Até agora, na listinha que tenho feito, contei uns 250 títulos diferentes de peças em cartaz na cidade. Estamos no final de setembro. Quer dizer que pelo menos a metade disso é de peças novas. Então, ao longo do ano inteiro, não é demais estimar uns 360 títulos diferentes de espetáculos de teatro adulto acontecendo durante todo este nosso 2011.
Na minha listinha de 250 títulos adultos (que tem uma grande lacuna entre fevereiro e março, putz!, vai ficar assim por enquanto) conto 38 monólogos e 40 peças para dois ou três atores no máximo. Quer dizer que 30 por cento das peças em cartaz na cidade não têm mais do que três atores nos seus elencos. Calculando que as outras 70 por cento empreguem 4 e somando tudo, dá que o teatro carioca utilizou, até o dia de hoje, uns 900 atores nas suas peças para adultos. E empregará, até o final do ano, uns 1300, aproximadamente, continuando nessa mesma proporção.
Embora não tenha um número mais preciso dos infantis (quantos estréiam, com quantos atores e outras) dá pra fazer uma aproximação. Se o jornal estiver certo, há praticamente 1 espetáculo infantil na cidade para cada 2 adultos. Então é possível que os espetáculos infantis empreguem um número igual à pelo menos a metade do número de atores profissionais do teatro adulto. Alguém pode ponderar quanto a existência de uma certa população de amadores e estudantes nos elencos infantis. É provável. Mas também os infantis montam menos monólogos e peças com pouca gente. E mesmo considerando outro fenômeno, que na minha época era comum entre os atores, não sei se hoje ainda é, ou seja, de atores que marcam presença num espetáculo para crianças à tarde e noutro para gente grande de noite, dá pra botar aí uns 600 atores ao longo do ano, empregados em peças infantis.
Somando tudo temos 1900 atores circulando no teatro carioca este ano. Querem dois mil? Tudo bem vamos botar uns dois mil.
Agora o outro lado.
Uma única escola de teatro da nossa cidade, O Tablado, registrou para as suas 800 vagas no ano passado um total de mais de 1800 inscritos. Um amigo me disse que o SATED-RJ estimava, há uns cinco anos atrás, em 11 mil a população ativa de atores no Rio com registro profissional. E a Rede Globo de Televisão mantém uma relação de atores que conta com mais de 20 mil profissionais cadastrados (mas não em ativa, trata-se de uma espécie de “banco de atores”). Outra: circula uma antiga estimativa que considera em 500 o número médio de atores em atividade remunerada por dia no Rio (isto é, se você pensar exclusivamente no dia de hoje, haveria no máximo 500 atores efetivamente trabalhando no teatro, tevê, cinema e o escambau a quatro).
Seja lá como for, embora os meus números não sejam exatos, a realidade estimada é bastante contundente: ser ator no Rio de Janeiro de hoje é um susto, uma peregrinação, um perrengue. Há gente demais para trabalho de menos.
E ainda nem consideramos o seguinte.
Imagine que as peças nessa cidade ficam no máximo dois meses em cartaz (essa é a média). Imagine que a maior parte das televisões abertas contrata por seis a oito meses e a cada não sei quantos anos. Imagine que um filme paga um mês de trabalho e olhe lá. Imagine as tevês a cabo e mídias alternativas não garantem três meses de trabalho. Você passa, portanto, ator, a maior parte do seu ano sem trabalhar. É fato. E a remuneração?
A maior parte dos atores brasileiros que consegue trabalho consegue este trabalho fazendo teatro. As emissoras de televisão também empregam bastante gente. Mas o teatro carioca usa uns 2 mil atores/ano e o teatro paulista usará entre 3 a 4 mil. E quantos atores trabalham nos outros estados brasileiros? Ainda que se esforçassem muito, e este não é o caso, as emissoras de tevê não empregariam tanta gente. O teatro é uma possibilidade de se produzir com menos dinheiro e os atores podem tentar se virar por aí. Mas o que se ganha é pouco. Mesmo no melhor dos cenários, isto é, num grande espetáculo com um patrocínio polpudo, se a peça sair de cartaz entre a trigésima segunda e a trigésima sexta sessão, como muito acontece, como viver o resto do ano? Pagar as contas, as prestações, o plano de saúde?
Parece haver uma tendência no Ministério da Cultura em considerar o teatro como um tipo de “evento”. Devido a que as peças não duram mesmo e que os patrocínios são dados como se fossem para uns shows e coisas do gênero, que duram pouco e (ao contrário dos shows) nem têm tanto público assim. Pode ser por isso que se pulveriza o (ainda escasso) patrocínio, para fazer cada vez mais peças com menos dinheiro possível. É um tipo de pensamento que transforma a conseqüência em causa, sem se perguntar por que tudo isso começou, como chegou a esse estado e se isto é, de fato, o natural da coisa. Pior ainda somos nós, atores e produtores, que consideramos boa a condição de produzir com trinta tostões (já que em todo caso, quando há patrocínio, “não é dinheiro nosso, é do governo”) vender a cinco merréis e mostrar a cara para nossos amigos e amigos dos nossos amigos que, de resto, nem ingresso pagam.
Alguém parece ter esquecido que as platéias de teatro se formam ao longo do tempo. Que uma peça precisa existir durante várias temporadas para consolidar seu público, sua importância, seu sentido enquanto empreendimento. As políticas de cultura precisam pensar nas enormes massas de atores desempregados, de onde vêm e o que as torna tão comuns no cenário urbano moderno.
Plantar teatro não é exatamente como pescar. Não dá para esperar o tempo da desova. Ou se há desova no Rio, é preciso deslocar a pescaria para outro lugar. Não é um esforço que dependa somente dos governos, é bem verdade. Os milhões de pescadores, entre empregados e desesperados, também podem, ou deveriam, contribuir com a nova política de arrecadação e distribuição do pescado. Para isso, um primeiro passo poderia ser a desmistificação da profissão de ator. Não é verdade que somos todos lindos e que ganhemos milhões. E nada garante que vamos ganhar amanhã.
Para não lidar com muitos números imaginários, já que eu realmente não sei nada dos infantis, vou botar uma média de espetáculos por mês qualquer, contando só os adultos que estréiam. Digamos os mesmos 15 de julho. Vezes doze são 180 espetáculos/ano. Até agora, na listinha que tenho feito, contei uns 250 títulos diferentes de peças em cartaz na cidade. Estamos no final de setembro. Quer dizer que pelo menos a metade disso é de peças novas. Então, ao longo do ano inteiro, não é demais estimar uns 360 títulos diferentes de espetáculos de teatro adulto acontecendo durante todo este nosso 2011.
Na minha listinha de 250 títulos adultos (que tem uma grande lacuna entre fevereiro e março, putz!, vai ficar assim por enquanto) conto 38 monólogos e 40 peças para dois ou três atores no máximo. Quer dizer que 30 por cento das peças em cartaz na cidade não têm mais do que três atores nos seus elencos. Calculando que as outras 70 por cento empreguem 4 e somando tudo, dá que o teatro carioca utilizou, até o dia de hoje, uns 900 atores nas suas peças para adultos. E empregará, até o final do ano, uns 1300, aproximadamente, continuando nessa mesma proporção.
Embora não tenha um número mais preciso dos infantis (quantos estréiam, com quantos atores e outras) dá pra fazer uma aproximação. Se o jornal estiver certo, há praticamente 1 espetáculo infantil na cidade para cada 2 adultos. Então é possível que os espetáculos infantis empreguem um número igual à pelo menos a metade do número de atores profissionais do teatro adulto. Alguém pode ponderar quanto a existência de uma certa população de amadores e estudantes nos elencos infantis. É provável. Mas também os infantis montam menos monólogos e peças com pouca gente. E mesmo considerando outro fenômeno, que na minha época era comum entre os atores, não sei se hoje ainda é, ou seja, de atores que marcam presença num espetáculo para crianças à tarde e noutro para gente grande de noite, dá pra botar aí uns 600 atores ao longo do ano, empregados em peças infantis.
Somando tudo temos 1900 atores circulando no teatro carioca este ano. Querem dois mil? Tudo bem vamos botar uns dois mil.
Agora o outro lado.
Uma única escola de teatro da nossa cidade, O Tablado, registrou para as suas 800 vagas no ano passado um total de mais de 1800 inscritos. Um amigo me disse que o SATED-RJ estimava, há uns cinco anos atrás, em 11 mil a população ativa de atores no Rio com registro profissional. E a Rede Globo de Televisão mantém uma relação de atores que conta com mais de 20 mil profissionais cadastrados (mas não em ativa, trata-se de uma espécie de “banco de atores”). Outra: circula uma antiga estimativa que considera em 500 o número médio de atores em atividade remunerada por dia no Rio (isto é, se você pensar exclusivamente no dia de hoje, haveria no máximo 500 atores efetivamente trabalhando no teatro, tevê, cinema e o escambau a quatro).
Seja lá como for, embora os meus números não sejam exatos, a realidade estimada é bastante contundente: ser ator no Rio de Janeiro de hoje é um susto, uma peregrinação, um perrengue. Há gente demais para trabalho de menos.
E ainda nem consideramos o seguinte.
Imagine que as peças nessa cidade ficam no máximo dois meses em cartaz (essa é a média). Imagine que a maior parte das televisões abertas contrata por seis a oito meses e a cada não sei quantos anos. Imagine que um filme paga um mês de trabalho e olhe lá. Imagine as tevês a cabo e mídias alternativas não garantem três meses de trabalho. Você passa, portanto, ator, a maior parte do seu ano sem trabalhar. É fato. E a remuneração?
A maior parte dos atores brasileiros que consegue trabalho consegue este trabalho fazendo teatro. As emissoras de televisão também empregam bastante gente. Mas o teatro carioca usa uns 2 mil atores/ano e o teatro paulista usará entre 3 a 4 mil. E quantos atores trabalham nos outros estados brasileiros? Ainda que se esforçassem muito, e este não é o caso, as emissoras de tevê não empregariam tanta gente. O teatro é uma possibilidade de se produzir com menos dinheiro e os atores podem tentar se virar por aí. Mas o que se ganha é pouco. Mesmo no melhor dos cenários, isto é, num grande espetáculo com um patrocínio polpudo, se a peça sair de cartaz entre a trigésima segunda e a trigésima sexta sessão, como muito acontece, como viver o resto do ano? Pagar as contas, as prestações, o plano de saúde?
Parece haver uma tendência no Ministério da Cultura em considerar o teatro como um tipo de “evento”. Devido a que as peças não duram mesmo e que os patrocínios são dados como se fossem para uns shows e coisas do gênero, que duram pouco e (ao contrário dos shows) nem têm tanto público assim. Pode ser por isso que se pulveriza o (ainda escasso) patrocínio, para fazer cada vez mais peças com menos dinheiro possível. É um tipo de pensamento que transforma a conseqüência em causa, sem se perguntar por que tudo isso começou, como chegou a esse estado e se isto é, de fato, o natural da coisa. Pior ainda somos nós, atores e produtores, que consideramos boa a condição de produzir com trinta tostões (já que em todo caso, quando há patrocínio, “não é dinheiro nosso, é do governo”) vender a cinco merréis e mostrar a cara para nossos amigos e amigos dos nossos amigos que, de resto, nem ingresso pagam.
Alguém parece ter esquecido que as platéias de teatro se formam ao longo do tempo. Que uma peça precisa existir durante várias temporadas para consolidar seu público, sua importância, seu sentido enquanto empreendimento. As políticas de cultura precisam pensar nas enormes massas de atores desempregados, de onde vêm e o que as torna tão comuns no cenário urbano moderno.
Plantar teatro não é exatamente como pescar. Não dá para esperar o tempo da desova. Ou se há desova no Rio, é preciso deslocar a pescaria para outro lugar. Não é um esforço que dependa somente dos governos, é bem verdade. Os milhões de pescadores, entre empregados e desesperados, também podem, ou deveriam, contribuir com a nova política de arrecadação e distribuição do pescado. Para isso, um primeiro passo poderia ser a desmistificação da profissão de ator. Não é verdade que somos todos lindos e que ganhemos milhões. E nada garante que vamos ganhar amanhã.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Agosto
Queridos e queridas, uns comentários rápidos essa semana. Estou cheio de projetos aqui pra tocar. Dinheiro nenhum, mas o que importa? E, também, as coisas que eu digo aqui na verdade são variações em torno dos mesmos temas. Sempre dizendo a mesma coisa de modos diferentes. Mas é o tal negócio, de tanto falar e falar de novo e de novo e de novo, das duas uma: ou melhoro a minha redação, ou melhora o mundo.
Fechamos o mês de julho. A minha lista de peças (eu faço um acompanhamento de peças) tem um furo no mês de março, justamente o mês com maior número de estréias, não acompanhei como devia o mês de março. Vou tentar conseguir a relação das peças que estrearam e das que re-estrearam e das que saíram de cartaz em março desse ano. Tem algumas lacunas na minha lista. Seja como for, contei 200 peças até agora, do começo do ano até agora. Só valendo final de semana. Com outros furos, além do mês de março. Às vezes comprava o jornal de sexta, às vezes o jornal de domingo. Na maioria das vezes o jornal de domingo. E tem peça que não sai listada no jornal de domingo, mas sai no jornal de sexta. E vice-versa. Melhor assim, porque se o jornal listasse todas as peças ao mesmo tempo, não tinha lugar pra Amy.
Ah, sim, estou contando aí os infantis. Sem os infantis andamos na base de 60 peças por semana em cartaz. É razoável, suponho. Tem as de meio de semana também, essas não sei quantas somam. Ah, sim, também tem duas semanas do mês de abril que não estão na minha lista. Ou seja, minha lista é uma merda. Mas é a que temos. Ou a que eu conheço, porque talvez outros estejam fazendo esse levantamento. É razoável. Mais de 200 peças no primeiro semestre. Sabem quantas ficaram em cartaz os sete meses? Alguém arrisca? Eu digo aqui. Não é cem por cento certo, alguma delas pode não ter estado em cartaz em alguma semana que eu não cobri, nos meses de março e abril. Mas foram 5. Isso. Das mais de 200 peças adultas em cartaz no Rio de Janeiro no primeiro semestre de sete meses do ano de 2011, exatamente 5 ficaram em cartaz o tempo todo, sem tirar. Não se pode dizer que foi a minoria das peças. Minoria de 200 não é 5. 5 não é nem 5% de 200. 5 de 200 é o mesmo que nada. Mas não se preocupem. Até o final do ano esse nada tende a ficar mais nada. Pelo menos 1 dessas 5 peças saiu de cartaz no último 31 de julho. Bom, mas talvez ela volte. Sempre há esperança que volte.
As outras ficaram menos de 2 meses em média. É isso aí. Esse ano a média caiu para menos de 2 meses. Com toda a imprecisão dos meus dados, dado que sou impreciso mesmo, isso é fato: em 2011 as peças ficam menos de 8 semanas em cartaz. Em média. Também aumentou o fracionamento da semana. De modo que o número de peças pode ser bem maior do que as minhas 200. A semana de quinta a domingo ainda existe no Rio e bastante. Mas aumentam os sexta a domingo, os terça e quarta, e apareceram também muitos quinta e sexta e alguns só segunda. Sinal que as pessoas estão procurando um buraco na programação. Sinal que há buracos e mais buracos na programação. Tempo curioso. Muitos produzem para poucos verem e ninguém ficar em cartaz.
O mundaréu de peças é uma faca de dois gumes. Se fossem 200, 500, 1000 peças, mas estivessem sempre lá, um dia poderíamos assistir todas elas. Mas são poucas e fugidias. Ou você vai na estréia, ou na semana seguinte. Ou então não vai mais. A mídia não dá conta de divulgar e nem nós de anunciar. Os anúncios de jornal são impossíveis de fazer. Muito caros. Só tem um jornal na cidade, então ele cobra o que quer. E reclama que não anunciamos. Vai piorar, digo eu. Muito. O boca a boca tem que ser rápido, não pode demorar, porque não há tempo. E os artistas se dão por satisfeitos com 15 pessoas na platéia. Outro dia uma amiga me perturbou que eu tinha que ver a peça tal, que a peça tal era o máximo e a prova de que era o máximo é que estava lotando. Quantas pessoas, eu perguntei, por sessão? 50. Bom, cinqüenta é melhor do que 15, então deve ser boa mesmo.
Pra se destacar na multidão tem que ter os 7 milhões do Violinista no Telhado. Não temos. Não temos 70 mil. Não temos 7. Voltamos ao tempo do Livro de Ouro, recebi outro dia uma petição pra assinar o Livro de Ouro de uma peça de teatro. Bacana, eu pensei, coisa de aluno de escola de teatro. Não era. Ficha técnica profissional. Acho que estamos virando americanos nisso também. Nos Estados Unidos tem zilhões de Livros de Ouro produzindo peças profissionais. Alguém dirá que não é vantagem. Não com o dólar a 1 e 50.
Agora vem o FATE, da Prefeitura, com 14 milhões. Bom. 14 milhões são dois violistas e nenhum telhado. Mas é pra um monte de gatos pingados. A idéia é essa, democratizar o investimento. Boa idéia. Democracia de fudidos Municipais contra a ditadura de 3 ou 4 que pegam a maior parte do bolo Federal. É um cabo de guerra e advinha quem vai ganhar? Não serei eu, certamente. Tudo pra projeto de peça nova. Bacana. Por que as velhas ninguém viu mesmo, então vamos fazer outras, quem sabe?
O assunto é esse, é o de sempre. Mas hoje escrevi um pouco diferente de ontem e de anteontem. Ótimo, sinal de que estou melhorando como escritor.
Ou não?
Fechamos o mês de julho. A minha lista de peças (eu faço um acompanhamento de peças) tem um furo no mês de março, justamente o mês com maior número de estréias, não acompanhei como devia o mês de março. Vou tentar conseguir a relação das peças que estrearam e das que re-estrearam e das que saíram de cartaz em março desse ano. Tem algumas lacunas na minha lista. Seja como for, contei 200 peças até agora, do começo do ano até agora. Só valendo final de semana. Com outros furos, além do mês de março. Às vezes comprava o jornal de sexta, às vezes o jornal de domingo. Na maioria das vezes o jornal de domingo. E tem peça que não sai listada no jornal de domingo, mas sai no jornal de sexta. E vice-versa. Melhor assim, porque se o jornal listasse todas as peças ao mesmo tempo, não tinha lugar pra Amy.
Ah, sim, estou contando aí os infantis. Sem os infantis andamos na base de 60 peças por semana em cartaz. É razoável, suponho. Tem as de meio de semana também, essas não sei quantas somam. Ah, sim, também tem duas semanas do mês de abril que não estão na minha lista. Ou seja, minha lista é uma merda. Mas é a que temos. Ou a que eu conheço, porque talvez outros estejam fazendo esse levantamento. É razoável. Mais de 200 peças no primeiro semestre. Sabem quantas ficaram em cartaz os sete meses? Alguém arrisca? Eu digo aqui. Não é cem por cento certo, alguma delas pode não ter estado em cartaz em alguma semana que eu não cobri, nos meses de março e abril. Mas foram 5. Isso. Das mais de 200 peças adultas em cartaz no Rio de Janeiro no primeiro semestre de sete meses do ano de 2011, exatamente 5 ficaram em cartaz o tempo todo, sem tirar. Não se pode dizer que foi a minoria das peças. Minoria de 200 não é 5. 5 não é nem 5% de 200. 5 de 200 é o mesmo que nada. Mas não se preocupem. Até o final do ano esse nada tende a ficar mais nada. Pelo menos 1 dessas 5 peças saiu de cartaz no último 31 de julho. Bom, mas talvez ela volte. Sempre há esperança que volte.
As outras ficaram menos de 2 meses em média. É isso aí. Esse ano a média caiu para menos de 2 meses. Com toda a imprecisão dos meus dados, dado que sou impreciso mesmo, isso é fato: em 2011 as peças ficam menos de 8 semanas em cartaz. Em média. Também aumentou o fracionamento da semana. De modo que o número de peças pode ser bem maior do que as minhas 200. A semana de quinta a domingo ainda existe no Rio e bastante. Mas aumentam os sexta a domingo, os terça e quarta, e apareceram também muitos quinta e sexta e alguns só segunda. Sinal que as pessoas estão procurando um buraco na programação. Sinal que há buracos e mais buracos na programação. Tempo curioso. Muitos produzem para poucos verem e ninguém ficar em cartaz.
O mundaréu de peças é uma faca de dois gumes. Se fossem 200, 500, 1000 peças, mas estivessem sempre lá, um dia poderíamos assistir todas elas. Mas são poucas e fugidias. Ou você vai na estréia, ou na semana seguinte. Ou então não vai mais. A mídia não dá conta de divulgar e nem nós de anunciar. Os anúncios de jornal são impossíveis de fazer. Muito caros. Só tem um jornal na cidade, então ele cobra o que quer. E reclama que não anunciamos. Vai piorar, digo eu. Muito. O boca a boca tem que ser rápido, não pode demorar, porque não há tempo. E os artistas se dão por satisfeitos com 15 pessoas na platéia. Outro dia uma amiga me perturbou que eu tinha que ver a peça tal, que a peça tal era o máximo e a prova de que era o máximo é que estava lotando. Quantas pessoas, eu perguntei, por sessão? 50. Bom, cinqüenta é melhor do que 15, então deve ser boa mesmo.
Pra se destacar na multidão tem que ter os 7 milhões do Violinista no Telhado. Não temos. Não temos 70 mil. Não temos 7. Voltamos ao tempo do Livro de Ouro, recebi outro dia uma petição pra assinar o Livro de Ouro de uma peça de teatro. Bacana, eu pensei, coisa de aluno de escola de teatro. Não era. Ficha técnica profissional. Acho que estamos virando americanos nisso também. Nos Estados Unidos tem zilhões de Livros de Ouro produzindo peças profissionais. Alguém dirá que não é vantagem. Não com o dólar a 1 e 50.
Agora vem o FATE, da Prefeitura, com 14 milhões. Bom. 14 milhões são dois violistas e nenhum telhado. Mas é pra um monte de gatos pingados. A idéia é essa, democratizar o investimento. Boa idéia. Democracia de fudidos Municipais contra a ditadura de 3 ou 4 que pegam a maior parte do bolo Federal. É um cabo de guerra e advinha quem vai ganhar? Não serei eu, certamente. Tudo pra projeto de peça nova. Bacana. Por que as velhas ninguém viu mesmo, então vamos fazer outras, quem sabe?
O assunto é esse, é o de sempre. Mas hoje escrevi um pouco diferente de ontem e de anteontem. Ótimo, sinal de que estou melhorando como escritor.
Ou não?
quinta-feira, 23 de junho de 2011
A QUESTÃO DA QUALIDADE
Respondendo à segunda questão, de M.S. do Rio de Janeiro, que pergunta sobre a qualidade dos espetáculos, se perdemos as referências, que ele mesmo não sabe mais quando um ator é bom ou não é bom...
Acabei demorando mais do que pensava a continuar com esses últimos assuntos. Normal. Estive (e ainda estou) às voltas com a nova temporada de LINDA, no Teatro dos Quatro, tentando colocar gente lá pra assistir às terças e quartas, às 19 horas. Não é uma tarefa nada fácil. NINGUÉM mais vai ao teatro às terças-feiras, quer dizer, como parte do hábito de ir ao teatro. É quase impossível. Às quartas ainda tem um e outro, mas mesmo assim... Não faz muito tempo as pessoas viam peças de terça a domingo no Rio de Janeiro. Claro, era tudo muito diferente, parece. Tinha menos peças, os atores ganhavam menos, os produtores pegavam dinheiro emprestado em banco pra produzir e pagar depois... Mas, de trinta, vinte e cinco anos pra cá as terças caíram. E depois caíram as quartas também (em São Paulo já quase não se faz teatro às sextas, quero dizer, uma temporada de sexta a domingo em São Paulo é difícil de se encontrar). Mais tarde, com o número de espetáculos aumentando, outras peças acabaram ocupando esses antigos horários – que viraram os horários alternativos. Mais ou menos assim que se sucedeu, me corrijam os que sabem mais.
Então este hábito de ir ao teatro no meio ou no começo da semana se perdeu e hoje é uma lenha um pequeno produtor convencer algumas pessoas a ver seu espetáculo numa terça ou numa quarta num teatro da zona sul carioca. Claro, se eu fosse um artista famoso seria um pouco menos difícil. Mas mesmo assim. Um artista famoso não praticaria o meu preço, não se conformaria com apenas dois dias também. A favor do artista famoso na terça e na quarta apenas que a mídia lhe renderia um pouco mais de atenção. Todos os cadernos de cultura, rádios, tevês, etc. estão com seus olhos voltados para a cidade do fim de semana, enquanto a cidade da quarta, das terças e das segundas, fica por aí, ao léu. Agora, se os produtores em geral, mesmo os grandes, já reclamam do pouco espaço para o teatro nos meios de comunicação em relação às suas temporadas de fins de semana, imagina nós outros, ali, entre outros tantos alternativos das terças cariocas.
E a terça não é má, sabiam? É mais fácil chegar e sair de um teatro na terça do que na sexta, por exemplo. Aliás, na sexta está ficando impossível. Os produtores, programadores culturais, o secretário de cultura, ministros e outros, deveriam repensar a estratégia de distribuição da população das grandes cidades pelos pontos de cultura e diversão às sextas-feiras. Poderiam estimular a freqüência intra-bairro, o uso do transporte coletivo, rever os horários dos eventos, etc. Porque, já a partir do final da tarde e até não sei que horas da noite, a cidade simplesmente dá um nó e ninguém vai a lugar nenhum. E não é só na zona sul não, é em qualquer região, qualquer região. Confiram os borderôs. Há anos que as sextas-feiras são ruins para o teatro carioca. Já há peças por aí fazendo temporadas à paulista, de sexta à domingo. Eu sugiro que incluam a quinta e pulem a sexta. Ganhariam mais.
Mas era pra responder à pergunta do colega acima, comecei a falar da minha peça, enveredei por essa história de dias e horários e não parei mais. Ok, vou lhe dar alguma atenção no espaço de tempo que me resta (preciso voltar ao telefone e às Redes Sociais para tentar convencer umas tantas pessoas, na marra, a assistir o meu singelo espetáculo na Gávea).
A pergunta do meu amigo sobre a qualidade é porque temos chamado a atenção aqui para um possível aumento descontrolado no número de espetáculos na cidade, que poderia estar diminuindo o cuidado com a qualidade do que está sendo produzido. Meu caro L.S., não há como garantir uma relação de simples causa e efeito entre as duas coisas. Há temporadas boas e más, em termos de qualidade, alternando-se ao longo do tempo em todos os lugares do mundo. Um ano vamos bem, surge um movimento, um artista importante, uma peça nova, uma interpretação brilhante. Outro ano vamos seguindo a viagem sem nem olhar pela janela porque a paisagem não é nada atraente. As coisas são assim e não parece que, a não ser que surja uma outra renascença, deverá ser muito diferente no futuro. E isso não parece estar diretamente relacionado ao número de peças de teatro que se faz por aí. Claro, deve ter havido um aumento no número de espetáculos de oportunidade. Sem dúvida a indústria do patrocínio fomentou o surgimento de uma classe de espetáculos feitos com o único propósito de garantir uns salários e umas tantas comissões aqui e ali. Mas também é possível que muitos artistas envolvidos nesse tipo de empreitada houvessem por bem lhes garantir um mínimo de qualidade e substância artística. A meu ver o problema com o aumento na produção de peças é parecido com o aumento da população sem que se cuide, ao mesmo tempo, da infra-estrutura necessária para abrigar, alimentar e prover as novas populações de um mínimo de condições de subsistência. Este é que é o ponto.
Se as peças são boas ou não, é um pouco menos importante. Há, nos Guias Offs de teatro no Rio e São Paulo uma interessante introdução alertando que o espectador poderá, eventualmente, errar na escolha das peças que vai assistir (supondo que ele assista a mias de uma, claro). Mas está certo esse sujeito, isto faz parte da coisa. Como às vezes pagamos para ver um grande espetáculo de futebol e assistimos a uma pelada e nada mais. Porque mesmo os melhores espetáculos da cidade têm seus dias ruins, quando o ator principal não acerta uma única nota ou a bailarina tropeça na segunda cena. E, por outro lado, peças ruins também podem nos apresentar a um ator brilhante que ainda não conhecíamos ou nos revelar outros valores quaisquer. Além daquela velha discussão do que é bom para um não ser para outro e por aí vai.
O problema é não podermos ver todas essas peças e compará-las. O problema é elas não sobreviverem o suficiente para que as vejamos e para que possamos confrontar nossas opiniões sobre todas ou pelo menos sobre a maioria. Que não existam estradas que nos levem até elas, médicos que as prescrevam a nós com segurança, televisões e rádios e jornais e revistas que as divulguem, críticos que as critiquem, e, pessoas, muitas pessoas, que as assistam conosco todos os dias, de segunda a segunda, ou até que fiquemos cansados.
Quanto à qualidade dos atores, não se preocupe, eu também não sei.
Acabei demorando mais do que pensava a continuar com esses últimos assuntos. Normal. Estive (e ainda estou) às voltas com a nova temporada de LINDA, no Teatro dos Quatro, tentando colocar gente lá pra assistir às terças e quartas, às 19 horas. Não é uma tarefa nada fácil. NINGUÉM mais vai ao teatro às terças-feiras, quer dizer, como parte do hábito de ir ao teatro. É quase impossível. Às quartas ainda tem um e outro, mas mesmo assim... Não faz muito tempo as pessoas viam peças de terça a domingo no Rio de Janeiro. Claro, era tudo muito diferente, parece. Tinha menos peças, os atores ganhavam menos, os produtores pegavam dinheiro emprestado em banco pra produzir e pagar depois... Mas, de trinta, vinte e cinco anos pra cá as terças caíram. E depois caíram as quartas também (em São Paulo já quase não se faz teatro às sextas, quero dizer, uma temporada de sexta a domingo em São Paulo é difícil de se encontrar). Mais tarde, com o número de espetáculos aumentando, outras peças acabaram ocupando esses antigos horários – que viraram os horários alternativos. Mais ou menos assim que se sucedeu, me corrijam os que sabem mais.
Então este hábito de ir ao teatro no meio ou no começo da semana se perdeu e hoje é uma lenha um pequeno produtor convencer algumas pessoas a ver seu espetáculo numa terça ou numa quarta num teatro da zona sul carioca. Claro, se eu fosse um artista famoso seria um pouco menos difícil. Mas mesmo assim. Um artista famoso não praticaria o meu preço, não se conformaria com apenas dois dias também. A favor do artista famoso na terça e na quarta apenas que a mídia lhe renderia um pouco mais de atenção. Todos os cadernos de cultura, rádios, tevês, etc. estão com seus olhos voltados para a cidade do fim de semana, enquanto a cidade da quarta, das terças e das segundas, fica por aí, ao léu. Agora, se os produtores em geral, mesmo os grandes, já reclamam do pouco espaço para o teatro nos meios de comunicação em relação às suas temporadas de fins de semana, imagina nós outros, ali, entre outros tantos alternativos das terças cariocas.
E a terça não é má, sabiam? É mais fácil chegar e sair de um teatro na terça do que na sexta, por exemplo. Aliás, na sexta está ficando impossível. Os produtores, programadores culturais, o secretário de cultura, ministros e outros, deveriam repensar a estratégia de distribuição da população das grandes cidades pelos pontos de cultura e diversão às sextas-feiras. Poderiam estimular a freqüência intra-bairro, o uso do transporte coletivo, rever os horários dos eventos, etc. Porque, já a partir do final da tarde e até não sei que horas da noite, a cidade simplesmente dá um nó e ninguém vai a lugar nenhum. E não é só na zona sul não, é em qualquer região, qualquer região. Confiram os borderôs. Há anos que as sextas-feiras são ruins para o teatro carioca. Já há peças por aí fazendo temporadas à paulista, de sexta à domingo. Eu sugiro que incluam a quinta e pulem a sexta. Ganhariam mais.
Mas era pra responder à pergunta do colega acima, comecei a falar da minha peça, enveredei por essa história de dias e horários e não parei mais. Ok, vou lhe dar alguma atenção no espaço de tempo que me resta (preciso voltar ao telefone e às Redes Sociais para tentar convencer umas tantas pessoas, na marra, a assistir o meu singelo espetáculo na Gávea).
A pergunta do meu amigo sobre a qualidade é porque temos chamado a atenção aqui para um possível aumento descontrolado no número de espetáculos na cidade, que poderia estar diminuindo o cuidado com a qualidade do que está sendo produzido. Meu caro L.S., não há como garantir uma relação de simples causa e efeito entre as duas coisas. Há temporadas boas e más, em termos de qualidade, alternando-se ao longo do tempo em todos os lugares do mundo. Um ano vamos bem, surge um movimento, um artista importante, uma peça nova, uma interpretação brilhante. Outro ano vamos seguindo a viagem sem nem olhar pela janela porque a paisagem não é nada atraente. As coisas são assim e não parece que, a não ser que surja uma outra renascença, deverá ser muito diferente no futuro. E isso não parece estar diretamente relacionado ao número de peças de teatro que se faz por aí. Claro, deve ter havido um aumento no número de espetáculos de oportunidade. Sem dúvida a indústria do patrocínio fomentou o surgimento de uma classe de espetáculos feitos com o único propósito de garantir uns salários e umas tantas comissões aqui e ali. Mas também é possível que muitos artistas envolvidos nesse tipo de empreitada houvessem por bem lhes garantir um mínimo de qualidade e substância artística. A meu ver o problema com o aumento na produção de peças é parecido com o aumento da população sem que se cuide, ao mesmo tempo, da infra-estrutura necessária para abrigar, alimentar e prover as novas populações de um mínimo de condições de subsistência. Este é que é o ponto.
Se as peças são boas ou não, é um pouco menos importante. Há, nos Guias Offs de teatro no Rio e São Paulo uma interessante introdução alertando que o espectador poderá, eventualmente, errar na escolha das peças que vai assistir (supondo que ele assista a mias de uma, claro). Mas está certo esse sujeito, isto faz parte da coisa. Como às vezes pagamos para ver um grande espetáculo de futebol e assistimos a uma pelada e nada mais. Porque mesmo os melhores espetáculos da cidade têm seus dias ruins, quando o ator principal não acerta uma única nota ou a bailarina tropeça na segunda cena. E, por outro lado, peças ruins também podem nos apresentar a um ator brilhante que ainda não conhecíamos ou nos revelar outros valores quaisquer. Além daquela velha discussão do que é bom para um não ser para outro e por aí vai.
O problema é não podermos ver todas essas peças e compará-las. O problema é elas não sobreviverem o suficiente para que as vejamos e para que possamos confrontar nossas opiniões sobre todas ou pelo menos sobre a maioria. Que não existam estradas que nos levem até elas, médicos que as prescrevam a nós com segurança, televisões e rádios e jornais e revistas que as divulguem, críticos que as critiquem, e, pessoas, muitas pessoas, que as assistam conosco todos os dias, de segunda a segunda, ou até que fiquemos cansados.
Quanto à qualidade dos atores, não se preocupe, eu também não sei.
terça-feira, 24 de maio de 2011
COMENTÁRIO DO NEY MOTTA AO POST ANTERIOR
Gil, está é uma questão que eu me debruço a tempos. Sim faltam salas! Sim o tempo de temporadas precisa aumentar! Sim o público precisa ser estimulado a assistir teatro! Ou melhor, teatros, pois são vários os estilos e gêneros. Mais a conta nunca vai fechar, pois vai continuar faltando espaços para tantas peças que se deseja montar. Em São Paulo mesmo com a grande quantidade de salas, lá eles também reclamam que é pouco. Acontece que lá alguns hotéis tem teatros; quase todos os instituots tem teatros; as redes do SESI e Sesc tem muitos teatros no estado todo; mas, principalmente, grande parte das cias de teatro tem seus próprios espaços teatrais. Na minha análise este último ponto é fundamental. Você vê por exemplo a Armazém Cia de Teatro, eles fazem suas estréias nos teatros da cidade, mas podem continuar com a temporada no seu próprio espaço. É disso que precisamos, que os grupos e cias tenham seus espaços. Outra coisa que eu defendo é que sejam criados aqui prédios (no plural mesmo) como o Centro Cultural São Paulo, onde os grupos que não tem seu espaço podem ensaiar e se apresentar. É um prédio plural (2 teatros, cinema, biblioteca, inúmeras salas de ensaio, etc) que oferece arte e cultura ao público e aos artistas um espaço para experimentação e encenação. Como eu também já disse, Lona Cultural serviu para um momento histórico na cidade do Rio de Janeiro, hoje elas deveriam ser doadas a grupos e a Prefeitura deveria investir em espaços como o Centro Cultural São Paulo. A discussão é boa.
Ney Motta
Ney Motta
sábado, 21 de maio de 2011
DUAS QUESTÕES – A PRIMEIRA
Respondendo a duas observações feitas pelos leitores a partir do post da semana passada. A de hoje é sobre essa questão da quantidade de peças.
1) O sujeito aqui reclama que eu estaria sugerindo que diminuíssem o número de espetáculos em cartaz no Rio, que eu estou nadando contra a corrente e enfraquecendo o movimento...
Não, não, acho que estou sendo mal compreendido. Esse negócio de blog é legal, mas o espaço nunca é suficiente. Bacana seria uma tese, um livro, sei lá, alguma coisa mais consistente. Mas no momento, é o que temos. Então usemos.
Nunca falei aqui nada contra o número de peças. De repente posso ter dado essa impressão pelo tom algo espantado como me refiro à coisa. Mas é porque eu imaginava menos peças em cartaz e acho que me surpreendi quando comecei a contar. Não sei se 54 espetáculos profissionais adultos (essa é a média do presente mês de maio) por final de semana é um número alto ou baixo para a cidade do Rio de Janeiro. São Paulo, dizem, tem mais de 150. E o fim de semana teatral em São Paulo tem um dia a menos que o nosso. Mas, também, lá também parece ter muito mais salas de espetáculos (ou não?). Quem sabe se tivéssemos mais salas de espetáculos ou tantas quanto eles ainda teríamos mais peças de teatro em cartaz do que São Paulo? Quem sabe?
Comparo com São Paulo e não sei se é a melhor comparação. Ou se deveria estar comparando com Nova Iorque, Paris, Cidade do México, Madri, ou Buenos Aires. Qual dessas cidades se parecerá mais com a nossa em quantidade de peças/habitante interessado em assisti-las? Ou em termos de fomento, em quantidade de grupos e de produtores independentes? Seja como for, não tenho como afirmar se esse número de peças em cartaz aqui é demais ou de menos para os cidadãos cariocas.
O que acho sim, fora do normal (mas o que será o normal?) é o tempo que cada uma dessas peças, em geral, tende a permanecer em cartaz. Senão vejamos.
Considerando os cinco primeiros meses de 2011, o Rio de Janeiro já apresentou ao seu público um número superior a 200 títulos de espetáculos teatrais. Entre os que estrearam este ano, os que vieram do ano passado ou de anos anteriores, reestréias, espetáculos de mostras, produções locais ou de outros estados, etc. Aliás, como deixei de contar algumas semanas, acho que 250 títulos é, na verdade, uma estimativa mais realista.
E só estou falando, bem entendido, de fins de semana. E de teatro adulto. Nada contra os outros dias da semana, nem contra o teatro infantil. Faço isso só para delimitar um pouco a amostragem. (Contando também os infantis, a média de espetáculos no Rio por final de semana é de setenta e poucos).
Se considerarmos que, na cidade toda, contando direitinho, só vamos achar umas 50 salas ou “espaços” em condições de receber esses mesmos espetáculos em cartaz... São cerca de 5 espetáculos por sala. Em cinco meses: cada espetáculo tem exatamente um mês, em média, para se apresentar. Logo, cada peça que ultrapassa esse tempo de permanência (e algumas conseguem) empurra umas tantas outras para novos espaços, para fora do cartaz, para os horários alternativos ou sei mais para onde pode ir uma peça a procura de público nessa cidade. Há falta de salas? Bem, parece evidente que há falta de salas. Mas os espetáculos se acotovelam de fato apenas pela falta de salas? E, se houvesse mais salas, durariam mais tempo em cartaz?
Como quase tudo aqui nesse blog, sem a metodologia adequada, sem números confiáveis, sem uma pesquisa séria e consistente, o que podemos fazer com o que temos, é estimar, imaginar e aproximar nossa imaginação do real.
Se houvesse uma relação mais simples entre o número de salas existente na cidade e a quantidade de espetáculos que produzimos, a tendência seria diminuir o número de espetáculos numa proporção pelo menos assemelhada ao número de salas que se fecham. Ou só aumentar o número de peças na medida em que aumentassem o número de “espaços” para abrigá-las. Não é o que se observa, no entanto. O número de espetáculos este semestre cresceu quase 10% em relação ao semestre passado (de 45 para 50). E a única sala nova que me lembro que abriu nesse mesmo, e há menos de 15 dias, foi o Teatro Poeirinha, em Botafogo, com capacidade para 70 pessoas.
Isso de público também é um indicativo que funciona ao contrário no teatro carioca. No semestre passado a média de público me pareceu (pelo que me diziam os produtores, como é difícil fazer um estudo sem números!) acima da média desse semestre. E, assim como no caso das salas, a produção da cidade parece ter ignorado essa retração de espectadores. E continuou aumentando. E quando vai parar de crescer? E em função do que deve realmente aumentar?
Um elemento importante na elevação da média de espetáculos em cartaz na cidade neste semestre, com o conseqüente aumento no rodízio de peças nas salas disponíveis pode ter sido o maior aporte da verba de fomento do município - a última edição do FATE foi generosa. Isso deu uma estimulada extra na produção. E, além disso, estávamos contando com os editais do governo federal, que estão atrasados até agora. Claro, o edital da Prefeitura não deu conta de tudo. Mas, com projetos em andamento e sem outra saída, muitos produtores podem ter optado por realizar os seus projetos mesmo sem receber os patrocínios que contavam.
Seja quais forem as causas, o fato é que, neste semestre, aumentou a pressão de uns espetáculos sobre os outros, com a conseqüente diminuição das temporadas médias para abaixo das “históricas” 32 semanas. Pode ser sazonal. Pode ser que, no próximo semestre, haja uma retração e voltemos aos números mais “razoáveis” de temporadas anteriores. Mas quem pode considerar saudável um teatro com a maioria das peças se espremendo em temporadas de até dois meses no máximo?
Ou talvez seja mesmo assim no mundo inteiro e nós não tenhamos nada de incomum com relação ao que se faz em outros lugares deste mundo.
1) O sujeito aqui reclama que eu estaria sugerindo que diminuíssem o número de espetáculos em cartaz no Rio, que eu estou nadando contra a corrente e enfraquecendo o movimento...
Não, não, acho que estou sendo mal compreendido. Esse negócio de blog é legal, mas o espaço nunca é suficiente. Bacana seria uma tese, um livro, sei lá, alguma coisa mais consistente. Mas no momento, é o que temos. Então usemos.
Nunca falei aqui nada contra o número de peças. De repente posso ter dado essa impressão pelo tom algo espantado como me refiro à coisa. Mas é porque eu imaginava menos peças em cartaz e acho que me surpreendi quando comecei a contar. Não sei se 54 espetáculos profissionais adultos (essa é a média do presente mês de maio) por final de semana é um número alto ou baixo para a cidade do Rio de Janeiro. São Paulo, dizem, tem mais de 150. E o fim de semana teatral em São Paulo tem um dia a menos que o nosso. Mas, também, lá também parece ter muito mais salas de espetáculos (ou não?). Quem sabe se tivéssemos mais salas de espetáculos ou tantas quanto eles ainda teríamos mais peças de teatro em cartaz do que São Paulo? Quem sabe?
Comparo com São Paulo e não sei se é a melhor comparação. Ou se deveria estar comparando com Nova Iorque, Paris, Cidade do México, Madri, ou Buenos Aires. Qual dessas cidades se parecerá mais com a nossa em quantidade de peças/habitante interessado em assisti-las? Ou em termos de fomento, em quantidade de grupos e de produtores independentes? Seja como for, não tenho como afirmar se esse número de peças em cartaz aqui é demais ou de menos para os cidadãos cariocas.
O que acho sim, fora do normal (mas o que será o normal?) é o tempo que cada uma dessas peças, em geral, tende a permanecer em cartaz. Senão vejamos.
Considerando os cinco primeiros meses de 2011, o Rio de Janeiro já apresentou ao seu público um número superior a 200 títulos de espetáculos teatrais. Entre os que estrearam este ano, os que vieram do ano passado ou de anos anteriores, reestréias, espetáculos de mostras, produções locais ou de outros estados, etc. Aliás, como deixei de contar algumas semanas, acho que 250 títulos é, na verdade, uma estimativa mais realista.
E só estou falando, bem entendido, de fins de semana. E de teatro adulto. Nada contra os outros dias da semana, nem contra o teatro infantil. Faço isso só para delimitar um pouco a amostragem. (Contando também os infantis, a média de espetáculos no Rio por final de semana é de setenta e poucos).
Se considerarmos que, na cidade toda, contando direitinho, só vamos achar umas 50 salas ou “espaços” em condições de receber esses mesmos espetáculos em cartaz... São cerca de 5 espetáculos por sala. Em cinco meses: cada espetáculo tem exatamente um mês, em média, para se apresentar. Logo, cada peça que ultrapassa esse tempo de permanência (e algumas conseguem) empurra umas tantas outras para novos espaços, para fora do cartaz, para os horários alternativos ou sei mais para onde pode ir uma peça a procura de público nessa cidade. Há falta de salas? Bem, parece evidente que há falta de salas. Mas os espetáculos se acotovelam de fato apenas pela falta de salas? E, se houvesse mais salas, durariam mais tempo em cartaz?
Como quase tudo aqui nesse blog, sem a metodologia adequada, sem números confiáveis, sem uma pesquisa séria e consistente, o que podemos fazer com o que temos, é estimar, imaginar e aproximar nossa imaginação do real.
Se houvesse uma relação mais simples entre o número de salas existente na cidade e a quantidade de espetáculos que produzimos, a tendência seria diminuir o número de espetáculos numa proporção pelo menos assemelhada ao número de salas que se fecham. Ou só aumentar o número de peças na medida em que aumentassem o número de “espaços” para abrigá-las. Não é o que se observa, no entanto. O número de espetáculos este semestre cresceu quase 10% em relação ao semestre passado (de 45 para 50). E a única sala nova que me lembro que abriu nesse mesmo, e há menos de 15 dias, foi o Teatro Poeirinha, em Botafogo, com capacidade para 70 pessoas.
Isso de público também é um indicativo que funciona ao contrário no teatro carioca. No semestre passado a média de público me pareceu (pelo que me diziam os produtores, como é difícil fazer um estudo sem números!) acima da média desse semestre. E, assim como no caso das salas, a produção da cidade parece ter ignorado essa retração de espectadores. E continuou aumentando. E quando vai parar de crescer? E em função do que deve realmente aumentar?
Um elemento importante na elevação da média de espetáculos em cartaz na cidade neste semestre, com o conseqüente aumento no rodízio de peças nas salas disponíveis pode ter sido o maior aporte da verba de fomento do município - a última edição do FATE foi generosa. Isso deu uma estimulada extra na produção. E, além disso, estávamos contando com os editais do governo federal, que estão atrasados até agora. Claro, o edital da Prefeitura não deu conta de tudo. Mas, com projetos em andamento e sem outra saída, muitos produtores podem ter optado por realizar os seus projetos mesmo sem receber os patrocínios que contavam.
Seja quais forem as causas, o fato é que, neste semestre, aumentou a pressão de uns espetáculos sobre os outros, com a conseqüente diminuição das temporadas médias para abaixo das “históricas” 32 semanas. Pode ser sazonal. Pode ser que, no próximo semestre, haja uma retração e voltemos aos números mais “razoáveis” de temporadas anteriores. Mas quem pode considerar saudável um teatro com a maioria das peças se espremendo em temporadas de até dois meses no máximo?
Ou talvez seja mesmo assim no mundo inteiro e nós não tenhamos nada de incomum com relação ao que se faz em outros lugares deste mundo.
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