quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

sábado, 11 de dezembro de 2010

MUDANÇAS DA LEI ROUANET e outro assunto

1

Não estou tão por dentro como gostaria estar da Nova Lei de Fomento do Governo Federal (ainda será chamada de Nova Lei Rouanet depois de sancionada?). Mas vou estudar, vou estudar. Tenho aqui algumas dúvidas e comentários, talvez alguém também me ajude. Entendi a idéia de estabelecer faixas de patrocínio. Mas não sei se entendi tirarem a possibilidade da faixa de 100%. Imagino uns casos.

Uma hipotética atriz, muito famosa e com muitos bons contatos entre as empresas patrocinadoras de cultura, apresenta ao MinC um projeto para um monólogo que custa 1 milhão e meio de reais. Pela Lei atual, o máximo que o parecerista do MinC pode fazer, constatando que o projeto esteja (e estará) acima dos padrões aceitáveis para monólogos de atrizes famosas e bem relacionadas, o máximo que ele fará será cortar os itens que lhe pareçam superorçados. Digamos que ele corte 500 mil (números redondos, múltiplos de 5 e 10, facilitam as contas na cabeça das pessoas). O mais que o parecerista pode fazer pela regra atual é liberar o restante milhão para captação com isenção total para o patrocinador interessado. Desperdício de dinheiro público, seguramente.

O que muda na nova regra? Pela nova regra o parecerista (ou seu equivalente) não apenas poderá cortar os 500 mil do monólogo da atriz perdulária, como também autorizar para captação uma faixa inferior ao valor do projeto como ficou orçado (por exemplo a faixa mais baixa: 40%). A atriz sai do processo com uma autorização para captar 400 mil reais para montar o seu monólogo de 1 milhão e meio, e se vira pra conseguir o resto com os setores de marketing que conhece das empresas que gostam de patrocinar atrizes famosas (se de fato ela precisar do resto, mas algum jeito dará). O governo deixou de desperdiçar uma grana com este projeto absurdo. Ótimo. Até aí tudo bem.

Mas (e sempre há um “mas”) se ao invés de uma famosa atriz bem relacionada, fosse uma atriz desconhecida e sem nenhum conhecido nas empresas que patrocinam, com um monólogo na base dos 150 mil? Bom, pelas regras atuais o parecerista também o máximo que pode fazer é, verificando alguma incorreção ou imperfeição nos valores propostos, cortar as gorduras do pobre orçamento. Cortou 50 mil (para ficar na proporção com o da primeira atriz hipotética) e aprovou os outros 100 para captação integral. A atriz sai com a publicação do Diário Oficial debaixo do braço e vai à luta. Conseguirá os 100? Não sabemos. Como é desconhecida e não conhece ninguém (e supondo támbém que o projeto não siga o modelo de apresentação dos projetos em captação) o mais provável é que desista e que entre num edital dos que existem hoje e realize o projeto com o dinheiro que lhe derem. No entanto, e se aparece uma empresa disposta a bancar o valor total com isenção? Maravilha, ela pega os 100 e monta, com a graça de Deus. Mas...
Pelas novas regras não será mais assim. Pelas novas regras, mesmo que concorde com os 100 mil do orçamento (depois de cortada as gorduras) o parecerista do MinC (ou seu equivalente) só poderá aprovar até o teto de 80% do valor do projeto para desconto do patrocinador. Nossa atriz desconhecida produzirá com 80 mil mesmo que encontre alguém disposto a pagar os 100. Os 20? Vai para o brejo com os outros 50 que já tinham sido cortados lá atrás. Qual é a lógica? A lógica é que, de qualquer modo, é melhor do que produzir com a metade do que não produzir. É uma lógica, sem dúvida. Burra, mas é.

Por falar nisso, a nova Lei também deverá ampliar o dinheiro dos editais. Ou o número deles. Ou as duas coisas, pelo que eu entendi. Porque, se o dinheiro para aplicação direta do governo em projetos culturais vai aumentar (é o que garantem), o processo de concessão do benefício certamente continuará sendo o dos editais (alguém está interessado em rever a política de editais?). Bom, então para terminar, voltemos às nossas atrizes de antes, no mundo hipotético dos novos prováveis editais.

As perguntas finais (de hoje) são: a atriz famosa e seu projeto de milhão poderá recorrer aos novos prováveis editais para compor parte de seu projeto fabuloso? E, se puder (e quem dirá que não e por quê?) quanto poderá ela somar, com verba direta dos editais, aos 400 obtidos indiretamente? E a atriz desconhecida? Também poderá engordar o seu cofrinho desconhecido com a grana dos editais? E vão continuar concorrendo juntas no mundo dos novos editais quando no mundo das empresas e do marketing estão tão absurdamente separadas?



2.



Chegou ao meu conhecimento (eu também virei repórter e não revelo a fonte nem que me matem) que empresários paulistas do setor de teatro (São Paulo é tão diferente do resto do Brasil que possui empresários paulistas do setor de teatro) estão se rebelando contra os patrocínios obtidos através da Lei Rouanet (a atual). Segundo a fonte, os empresários produtores de peças estão dispostos a não receber mais patrocínio pela Lei Federal. Parece que um dos motivos mais fortes para o estranho motim (imagino um artista de Rio Branco lendo sobre isso) é a corrupção no setor de marketing ou coisa que o valha das empresas. Se minha fonte for confiável e se a notícia procede é realmente um escândalo. Sempre se falou (mas até agora ninguém provou, que eu saiba) que rola propina no mundo da intermediação dos patrocínios culturais. Mas que a coisa chegue a esse ponto é sinal de que o barco realmente saiu do controle. A corrupção é uma doença. Mas só quando vira endemia é que nos damos por fartos dela.

Pelo menos serve para que não nos esqueçamos de que corrupção não é sinônimo de poder público. Brasileiro botou na cabeça que só político é que recebe propina. Não é verdade. Estamos cheios de escândalos no setor privado também. É que, como sempre aparece um figurão de algum governo pra pegar um troco, ficamos com essa impressão na cabeça. Corrupção é uma cultura. Ou quebramos a corrente, ou faremos parte dessa cultura mais cedo ou mais tarde. Que os empresários revoltados não fiquem só na fase do beicinho e do “vamos trocar de mal”. Que denunciem e provem. Há muito dinheiro indo para o lugar errado na saúde, na educação, no esporte, na cultura, na alegria e na tristeza. Mudar a lei ajuda. Mas combater o meliante também faz parte de policiar.

domingo, 5 de dezembro de 2010

MIX

I.

Essa semana o jornal da cidade que eu uso pra fazer meu somatório de espetáculos em cartaz “esqueceu” (não sei que outro nome teria isso) de relacionar as peças infantis em cartaz na sua coluna de serviços do seu Segundo Caderno. Ou trocou os infantis de lugar e não avisou. Amanhã devem chover cartas e emails à redação do jornal reclamando contra o “acidente”. Curioso que o mesmo jornal estampava, no mesmo Caderno, uma entrevista de página inteira com o atual Ministro da Cultura. Que rata! Será que o Ministro e a equipe do Ministro e os amigos e inimigos do Ministro, seus críticos, seus desafetos, seus admiradores, seus seguidores e puxa-sacos, será que esse pessoal todo notou? Ou este é um problema “menor” que só nós do teatro infantil é que reparamos? Tudo bem que esse domingo deu praia (e que praia!) no Rio de Janeiro. Mas não precisava matar o teatro infantil por isso. Há um artigo, se não me engano do Peter Brook, ou assemelhado, que fala das conseqüências de um hipotético fechamento dos teatros na França e que isso mal seria notado pela população. Está aí, no “esquecimento” do jornal da cidade, uma oportunidade pra conferir, pelo menos em parte, a catástrofe (para nós) sugerida pelo Peter.

Os infantis estavam lá... Meio escondidos, mas estavam. Eu que não vi. Mas a simples hipótese de que o úncio jornal da cidade que presta esse erre nisso é tão cruel que... (E erra.)

II.

Essa é a temporada de caça aos editais. Empresas e governos lançam os anzóis e nós é que ficamos pescando. Muita incompetência na hora de bolar os ditos e malditos. Alguém precisa reunir o pessoal do marketing das empresas e conversar com eles. Fica muito difícil entender o que eles querem quando encontramos escrito no edital de patrocínio cultural de uma determinada empresa que eles privilegiam projetos que favoreçam a “busca pela democratização e promoção do acesso à cultura pelo desenvolvimento sócio esportivo do Brasil” (o que significa? Peças sobre a Copa do Mundo e as Olimpíadas?). Também dou um doce para quem traduzir essa dica noutro edital de uma importante patrocinadora da cultura no país, que: “tem como objetivo, selecionar iniciativas culturais que estimulem a fluência comunicativa, a expressão, o acesso, o compartilhamento de informações e conhecimentos e o trabalho colaborativo como condições preciosas para o reconhecimento da influência das práticas culturais no processo de construção de identidades, convivência e desenvolvimento”. Não dá pra ser menos prolixo e mais objetivo? Quando ganha o marketeiro que elabora um edital desses? O dono da empresa entende? Ficam os pobres dos produtores correndo atrás de satisfazer os desejos das empresas patrocinadoras, mas com essa falta de clareza (citei apenas dois pra não ocupar muito espaço, mas são muitos os exemplos) não há tatu que agüente. A impressão é que estão se lixando e que apenas esperam que os projetos resultem bons para a imagem da empresa conforme a onda do momento. Aí vão lançando pelo meio dos editais as palavras e expressões da moda, mais ao menos ao acaso. E tudo vira “responsabilidade social”, “compromisso ambiental”, “inclusão”, “práticas sociais consequentes” e durma-se com um barulho desses.



III.

Sensacional a iniciativa de reunir Eugênio Barba e Aderbal Freire-Filho da maneira como o fez essa semana o Teatro Poeira, em Botafogo, no Rio de Janeiro (a idéia teria sido do Barba, mas o Poeira abraçou e realizou). Cerca de setenta ouvintes e assistentes, entre atores, diretores e autores cariocas, vamos ver o que o encontro repercute ao longo do tempo. E tomara que venham outros. Contribui imensamente para as discussões em torno dos caminhos do teatro no mundo.
Uma das (muitas) reflexões fundamentais é justamente essa que andamos falando aqui, qual seja, sobre o que seja essa difícil e desconhecida arte de “dirigir”. Dois mestres e duas poéticas distintas, dissecadas aos olhos de uma platéia comum, típico encontro pra fazer ou abrir a cabeça da moçada. O teatro não precisa (e nem consegue) ser um só. Mas pode e deve ser feito com um mínimo de conhecimento do assunto. Vamos ver o que rende...



IV.

A propósito de diretores uma dica: o realismo, quando surgiu no teatro, significou uma revolução sim, mas isso foi relativamente breve. Em seguida, um furacão chamado cinema e um tsunami chamado televisão apareceram e mudaram tudo. Esse axioma tem sido dito e repetido de várias formas e por muitos encenadores diferentes durante anos a fio. Mas as pessoas ouvem e não pensam no assunto. Sofrem os atores, coitados, tentando reproduzir no palco as suas vidinhas cotidianas. Sofrem os autores, que vêm suas peças, mesmo as melhores, reduzidas a um papo de comadres. Só os diretores (os ruins) gozam a glória desse teatro mal feito. Como diz um amigo meu: ainda bem que não são médicos, ou matavam seus doentes todos os dias (e não estão matando?).



V.

O carioca inventou o circuito-cidade. A peça estréia num teatro, geralmente produzida com pouca grana, mas também produzida sem a intenção de render dinheiro. Fica duas ou três semanas estacionada ali. Depois não pode mais porque entra outra novidade no lugar. A peça muda de teatro (às vezes até de bairro). Fica mais duas ou três semanas. Um terceiro teatro da cidade será seu destino final. Depois vai para a prateleira (exatamente o mesmo fenômeno do cinema nacional) aguardando festivais e convites esparsos, que podem não vir. Todos sabemos quais três ou quatro teatros compõem este circuito. A peça rende um público, mas pouco dinheiro. Como o patrocínio para produzir também não foi lá essas coisas, pergunta-se: e de que vivem esses moços?



VI.

Como são zilhões os artistas, e como ninguém vive das bilheterias (salvo dois ou três) pulveriza-se o patrocínio para atender ao maior número possível de famintos. É praticamente um bolsa-família do teatro (com a diferença que o bolsa-família leva as famílias para cima e que o bolsa-teatro leva os artistas para o fundo). Não é culpa dos governos que essa política se instaure e prevaleça. É problema dos próprios artistas de teatro que não se mobilizam para resolver ou dar um encaminhamento a essa questão. É bom para o sistema que atores sejam descompromissados com o andamento do seu negócio. Quanto mais os atores estiverem pensando em seus próprios umbigos e menos nas suas questões comuns, melhor. O sistema estimula a competição a qualquer custo e o pensamento auto-centrado. Seria muito perigoso para o sistema que essas pessoas fossem esclarecidas e conscientes de seu lugar nesse mundo. Parece que não temos nenhum inimigo comum. Então, nos cumprimentamos com chutes e cotoveladas.

domingo, 21 de novembro de 2010

QUEM SOMOS?

Continuo aqui, pacientemente, fazendo meu levantamento semanal das peças em cartaz, das estréias, das despedidas dos teatros da cidade. Na falta de um estatístico mais confiável, vou eu mesmo contando e somando e dividindo. Sem as peças do meio de semana, porque não compro o jornal da cidade todo dia. Nos outros dias da semana eu leio outro jornal, mais barato e onde sai muita coisa de futebol.


Os números desse fim de semana voltaram aos números da segunda quinzena de agosto, quando comecei a fazer a lista. Estamos outra vez na casa dos 80 espetáculos (infantis + adultos). Justamente em novembro, quando tradicionalmente as peças começam a perder público para as festas de fim de ano. Só os infantis diminuíram, talvez as crianças já não estejam mais à mão nessa época. Os adultos, porém, subiram absurdamente.

Já disse aqui que, na falta de pesquisas e estudos de verdade, não sei nem tenho como saber se este número é bom ou ruim. Talvez seja pouco que uma cidade com tantos milhões de pessoas não tenha nem cem peças em cartaz no final de semana. Talvez seja muito. Quem sabe? Estarão essas peças todas lotando? Estarão esses espetáculos todos se sustentando com a bilheteria? Quantos desses espetáculos vendem mais de 50% por cento da lotação dos teatros? E quanto os que vendem menos do que isso arrecadam? E vivem do quê?

A questão que me chama atenção agora, para essa crônica (as outras questões também são boas, temos falado delas de vez em quando, retomaremos o assunto depois) a questão, dizia, que me chama atenção para essa crônica é outra.

Um dia desses, ao comentar sobre isso de teatro, um amigo de longa data e longuíssima carreira chamou a atenção para o fato de quase não conhecer nenhum nome dos que saem nos tijolinhos das peças listadas no jornal da cidade. Ora, em teatro se conhece todo mundo. Somos uma espécie de confraria. Fazemos filhos uns com os outros, cuidamos das crianças dos amigos (e muitas delas acabam entrando para o ramo, feito os pais e os colegas de seus pais). Então, como pode ser que um confrade do teatro carioca não saiba quem sejam as pessoas que estão em cartaz pelo Rio?

É o assunto da crônica. Em duas ou três palavras – às vezes me estendo muito nos meus assuntos e não há necessidade.

Passando os olhos pelos tijolinhos eu também, verifiquei, eu também, que há mesmo uma quantidade enorme de artistas no Rio de Janeiro estrelando as peças do jornal e dos quais (eu também) nunca ouvi falar. Ora, mesmo não tendo a carreira e os anos do meu amigo, tenho já um bom tempo nessa nossa profissão. Ainda peguei um ou outro dos antigos produtores que tiravam dinheiro do bolso pra montar peças. Ainda peguei o Prêmio Molière. Vi nascer a Lei Sarney, que virou Rouanet. Se isso não é ser velho (sempre pode ser que não) é perto de ser. E igualmente me espanta não saber quem é essa gente toda que está em cartaz.

São muitos novos. Não digo novos de idade, há deles para todas as gerações, mas novos no exercício do ofício. Surgem de todos os cantos. O Rio de Janeiro é um imã cercado de praias por todos os lados. Entram na profissão aos borbotões, é um tsunami de gente fazendo teatro. E profissionais – sempre. A febre do teatro, todos sabemos quem provocou no Brasil. Chama-se televisão. A televisão precisa basicamente de atores, muitos atores. E atrás desse enxame de atores aparecem diretores, cenógrafos, produtores...

Se um produtor de elenco da televisão precisar de um ator anão amanhã de manhã para a novela das seis, ou de uma mulher alta e magérrima para a novela das oito, ele precisa que esse ator exista e, de preferência, que esteja desempregado e tenha registro profissional. O registro profissional é relativamente simples. Há cursos que profissionalizam atores em seis meses ou menos. E, para os que não têm paciência com os cursos, existe a solução definitiva do Registro Provisório. Já os desemprego o teatro se encarrega de produzir.

Sendo basicamente um caminho de passagem para a televisão, onde nos tornaremos estrelas e seremos ricos, bonitos e famosos, o teatro vira a casa da Mãe Joana. Precisamos estar trabalhando nele para que nos vejam e nos levem para a televisão, mas precisamos que nos deixem entrar e sair quando formos chamados. Precisamos que as peças não durem. Precisamos da noite de estréia e duas semanas a mais. Depois: rua.

Eu estava no início do ano parado em algum aeroporto no meio de uma excursão do Púcaro Búlgaro. Avião atrasadíssimo, peguei uma dessas revistas que se lê em viagens pra matar o tempo. Com cara de séria (mas todas têm). O avião atrasou tanto que fui parar na sessão de Cartas dos Leitores e tinha lá um rapaz perguntando como fazia para virar ator e ficar famoso. O editor, que sabia tudo sobre todos os assuntos, não titubeou ao responder sobre este.

Primeiro ele mandava o rapaz entrar para uma academia e modelar o corpo. Depois sugeria que se mudasse para o Rio de Janeiro (o leitor não morava no Rio), de preferência nos arredores do Projac. E por fim praticamente aconselhava o camarada a ficar plantado na porta esperando passar algum diretor, ator, alguém que pudesse colocá-lo pra dentro. Nenhuma palavra sobre escola, interpretação, profissionalismo, nada de nada disso. Era um editor sério, já se vê.

Bom, pelo menos também não mandava o rapaz ir fazer teatro enquanto isso. Nem precisa. Porque outros muitos já mandam.

Esse assunto de atores rende. Voltaremos a ele da próxima vez.

domingo, 14 de novembro de 2010

DIRETORES (2)

Outro dia me deu a seguinte iluminação na cabeça. A respeito da minha ignorância quanto ao que se faz em cinema e tevê. Eu, ignorante, quando vejo programas de televisão ou filmes, a não ser que sejam casos muito extremos de linguagem e que sejam muito, muito diferentes do normal (por exemplo: um filme mudo; por exemplo: um programa de tevê sem pé nem cabeça) eu, ignorante, repito, daquilo, acho que são todos iguais. Todos. São imagens seqüenciadas, feitas com câmeras de vídeo e de filmar, com som gravado, e pessoas passando na frente e dizendo ou fazendo coisas mais ou menos parecidas o tempo todo. Não vejo, por exemplo, a menor diferença entre uma série de humor e uma série séria. A não ser, é claro, que uma me faz achar graça das coisas e a outra não. Do mesmo modo, um filme comédia e outro de terror pra mim são a mesma coisa, só que provocam reações diferentes.

Pois bem. Isso se dá porque eu não entendo do assunto. Porque, se entendesse, veria que não é assim

Estudando e conversando com diretores de cinema e tevê vou, aos poucos, descobrindo o tamanho da minha estupidez. Um filme não é diferente do outro só porque muda de gênero. Nada disso, absolutamente. Duas comédias, apenas porque são comédias, não quer dizer que sejam obras iguais como cinema. Mesma coisa com os programas da televisão. Uma novela não é igual à outra novela, embora eu ache que sejam. Eu acho que novelas são todas iguais, porque eu não entendo nada daquilo. Porque me falta a ciência, naturalmente.

Porque (meus amigos diretores de cinema e tevê me ensinando:) aquilo ali tem uma ciência. Onde eu vejo apenas imagens e sons jogados sobre uma tela iluminada, existe uma estética. As imagens não dispostas ao Deus dará, elas são editadas em um laboratório de edição. Também não são filmadas ou gravadas de qualquer jeito, elas têm uma orientação de eixo, de iluminação, são registradas em planos (gerais, médios, fechados, outros), alguns diretores as desenham antes e outros se reúnem com seus assistentes para programá-las. As locações também são cuidadosamente escolhidas, os atores, a equipe, há uma orquestração pensante por ali, existe um projeto econômico, um sentido social e o escambau. Aquilo tudo é calculado para criar a obra que eu assisto em casa ou no cinema. E cada produção tem seu caráter que a diferencia, mesmo que pertençam a gêneros iguais. Eu não noto as diferenças, porque não sei ler aquilo. Mas os especialistas meus amigos distinguem duas séries de comédia da televisão, que pra mim parecem ser rigorosamente a mesma, como quem vê as diferenças óbvias entre dois quadros de pintores diferentes. Ou mais ainda, entre um quadro e uma escultura, entre uma litografia e uma partitura de Verdi. Mas eu só vejo (ou só via, porque estou aprendendo) imagens em uma tela iluminada com um som ao fundo.

Curioso que para entender e distinguir as obras de cinema e tevê não se necessite ser um artista, um diretor ou um técnico destas profissões. Talvez porque tenham se popularizado muito. Mesmo que tenham menos de um século, essas duas artes e seus segredinhos estão na boca do povo. Basta ser um pouco mais aficionado, basta ser um espectador mais atento, para aprender a perceber as nuances e as especificidades por trás das obras de tevê e dos filmes. De algum modo, essas duas indústrias disseminaram o seu conhecimento a respeito de si próprias de maneira que (a não ser em casos de estupidez obtusa), não apenas somos capazes de reconhecê-las como arte, como temos a sensação de possuir algum domínio (ainda que simplesmente teórico) sobre muitas das suas técnicas. E apesar disso nem todos viramos diretores de cinema, não é qualquer um que dirige uma novela, e nem os governos nem as cadeias de televisão costumam entregar as suas produções na mão do primeiro aventureiro que aparece. Pode rolar, claro, de um incauto dirigir a novela das oito (que é às nove). Mas não é comum de acontecer (ou não deveria - ham!).

Com o teatro não é o que se dá. E é isso que eu disse aqui na semana passada e que repito hoje um pouco mais explicadinho.

No teatro tudo pode. Mas parece que ser diretor é a coisa que mais pode no teatro hoje em dia. Penso que funciona mais ou menos assim. No cinema e na tevê existem máquinas que gravam (ou filmam). Essas máquinas produzem alguma coisa que se vê e que reconhecemos como a obra. Para produzir uma obra que faça algum sentido e interesse outras pessoas além de nós que as produzimos, precisamos conhecer e seguir certas regras. Sem essas regras as máquinas não filmam. Sem essas regras as coisas filmadas ou gravadas não farão sentido para quem as assiste. O filme não acontece. Haverá ali atores, haverá ali uma locação e um roteiro, mas se as regras de filmagem, ou de gravação não forem seguidas (e às vezes desobedecidas, mas não porque não colocamos nada no lugar, e sim porque inventamos novas regras que têm funções análogas às velhas) se as regras não forem seguidas não há filme, não há série, não há novela, não há, portanto, obra.

E por que achamos que no teatro não há regras? Por que achamos que um ator e um banquinho são eles mesmos, sem regras, a obra que viemos assistir? Só porque não há máquinas que gravem (ou filmem)? Só por que não podemos levar o produto pra casa e guardar na prateleira da sala junto com os livros de ficção? Vamos pensar nos vídeos do youtube. Se um sujeito maluco liga uma webcam e dança pra nós e faz xixi na nossa frente, podemos dizer que estamos diante de algum tipo de obra, mas sabemos no nosso íntimo que não se trata de uma obra dramática. Por quê? Por que ele não finge. E fingir é uma das nossas regras. Para provocar – um documentário. No documentário pode-se não fingir e mesmo assim pode-se considerá-lo uma obra dramática. Quebrou-se uma regra. Porém, o diretor do filme colocou em seu lugar um sentido de ficção, que é uma nova regra, com função de preencher o lugar da regra que foi quebrada. O homem que faz xixi e o ator que finge que mija são obras em vídeo e nós estamos treinados para reconhecer e diferenciar essas obras. E quem nos treinou? A nossa cultura de filmes e de tevê foi que nos treinou.

E por que no teatro não é assim? Por que achamos que, no teatro, não há obra ou que tudo é obra (o que dá no mesmo)? É a luz que nos ilude? É a cenografia, as roupas dos atores, o nome deles no cartaz? E, se no teatro não há obra, então o que há? Bom, mas se não há obra, então é fácil. Porque uma obra dramática (vide a tevê e o cinema) exige edição, decupagem do roteiro, microfones, exige um plano para filmar, exige um sentido e outras coisas complicadas e que (sem as máquinas e seus manuais) seria impossível fazer. Mas ajuntar umas pessoas repetindo um texto decorado sob a luz de um refletor, ah, sim, isso naturalmente é muito mais simples e isto eu sei. E nem é preciso estudar muito para isso. Vamos lá, gente, vamos lá! - basta um pouco de entusiasmo e não desistir logo da primeira vez. E é mais ou menos assim que os diretores de teatro surgem e são qualquer um. Talvez não estejamos mais interessado pela obra. Talvez, no teatro, nosso interesse seja outro - quem sabe a simples reunião na sala escura (sem pipoca, porque faz barulho) seja  suficiente para nós. Melhor do que reconhecer a nossa própria ignorância. Que nos perdemos da obra e que não sabemos onde ela está.

domingo, 7 de novembro de 2010

DIRETORES

Em algum lugar da história recente do teatro nacional, eu não sei exatamente aonde, alguém parece ter decidido que não tem muita importância esse negócio de diretor de teatro. Pode ser porque, com os patrocínios, foram aumentando muito o número dos projetos e das produções, pode ser porque o dinheiro e o tempo não deram mais pra pagar uns bons diretores para todos os eventos, pode ser porque não haja mesmo bons diretores em quantidade pra tudo quanto é peça, podem ser outras as razões – históricas, econômicas, culturais – mas o fato é que isso de ter que haver diretores de verdade para existirem peças foi sendo deixado de lado ultimamente.

Claro, o crédito ainda está lá em todos os cartazes – “direção de” – e sempre existe algum incauto a completar a frase, mas estou falando aqui do sujeito diretor-diretor, do que entende de fato do riscado (e não apenas do bordado) do métier. Recentemente, li um artigo on line de um crítico paulista reclamando muito dos velhos e bons diretores do teatro brasileiro que, segundo ele, tinham perdido a mão (quando não a razão) e andavam tropeçando nas próprias fórmulas, insistindo nos mesmos truques antigos, afogados em  repertórios ruins e outras mazelas. Como todo critico que se preze, bons e maus, este senhor paulista, naturalmente, estará errado. Mas, se alguém chega a por em dúvida a arte e a habilidade dos Papas, que dirá dos noviços que surgem e se sucedem a toda hora (e com a mesma pressa desaparecem) encabeçando as fichas técnicas dos novíssimos espetáculos brasileiros?

Verdade seja dita, é uma arte ingrata. Sabemos no geral muito pouco sobre as outras funções estampadas no cartaz dos teatros. Mas somos capazes de algumas boas ilações (e às vezes até acertamos) a respeito do que fazem ou deixam de fazer atores, autores, figurinistas, cenógrafos, coreógrafos, iluminadores e outros tantos profissionais cujos nomes encontramos listados ali. Com relação à função onde se lê “diretor” ou “direção”, no entanto, reina a mais absoluta ignorância.

Outro dia me veio à cabeça a questão de que porque eu não me torno um diretor de cinema ou de tevê. São profissões respeitadas, ganha-se bem e sabemos muito mais sobre elas, por causa da popularidade que o cinema e a televisão desfrutam entre nós, do que sabemos qualquer coisa a respeito do seu título assemelhado em teatro. Porém, justamente porque sei ou acho que sei alguma coisa a respeito de dirigir filmes e telenovelas foi que desisti do negócio. Para virar um diretor de televisão, o camarada fica anos trabalhando como assistente, câmera, ou sei lá quantas outras coisas este indivíduo deve saber, antes que o representante da emissora lhe confie esta função de dirigir. Com o diretor de cinema não é muito diferente. Nos dois casos é preciso entender de um sem número de questões técnicas e artísticas (e financeiras, por que não?) e é tão grande a responsabilidade do cargo que realmente não é pra qualquer um – mesmo o pior diretor do pior seriado da televisão brasileira saberá mais destes assuntos do que eu.

Para virar diretor de teatro, no entanto, parece não ser preciso coisa alguma além de querer atender pelo epíteto. É alguém para completar a ficha técnica. Alguém para um olhar de fora. Alguém para dizer isto está bom ou isto não funciona, ou saia deste lado e entre pelo lado de lá para não atrapalhar o colega. Ou não pisem nos móveis porque eles estragam. Os espetáculos se resolvem por um bom ator, ou por um bom autor, cenário, luz e figurino, ou, se por nada disso, pelo menos por uma platéia complacente e desavisada, uma crítica tacanha e uma mídia que não está nem um pouco interessada no produto que vende.

Deste modo, tanto os maus diretores quanto os bons (e há deles) são igualmente importantes ou desimportantes para o que se faz hoje em dia pelos palcos da cidade. O público se guia e se referencia pelo realismo que conhece desde criança do cinema e da tevê (aqui eles de novo). E os diretores que não são diretores, mas assinam diretores, também. O problema principal é que, ao contrário dos seus homônimos das telas, os diretores das peças – e os produtores que os colocam ali e os atores que fingem acreditarem neles e os críticos que os elogiam e todo o resto – não estão nem um pouco interessados, nem são cobrados a se interessar, por todo o aparato técnico e o sem número de questões éticas e estéticas que o teatro profissional contemporâneo suscita.

Naturalmente devem estar pensando: aqui não há equipamentos caros a estragar, nem horas de estúdio a serem pagas, nem o Ibope vem cortar o meu pescoço, nem tenho rolos de filme a perder, e, seja como for, as pessoas sairão divertidas ou entediadas daqui, mas tanto faz. Porque tudo o que as pessoas querem, quando vão ao teatro, é olhar para o ator famoso de perto, ou aplaudir o filho que virou artista, ou viajar numa peça malfeita, ou sei lá o que as pessoas querem ao assistir este espetáculo e de qualquer modo não tenho nada com isso. Porque não fui eu quem fiz esse mundo e não tenho porque me lixar com o erro dos outros.

De fato, parece que não há problema em que se dê a direção dos nossos espetáculos a qualquer um. Pelo menos os não iniciados não perturbam o nosso negócio nem nos enchem o saco. Semana que vem voltaremos ao assunto.

domingo, 31 de outubro de 2010

Ilações e números

De uns anos pra cá comecei a me interessar pelos números dos borderôs das minhas peças e, também, por outros números relacionados ao teatro ou à produção de teatro. Hoje, me arrependo de não ter começado antes com essa minha mania. Poderia saber mais coisas sobre o teatro de hoje se soubesse com mais exatidão como ele era feito há vinte anos atrás. Guardo memórias, é claro. Mas os números, nem que fossem apenas os meus e os dos meus amigos mais próximos, me fazem falta.


Porque faz falta saber com um pouco mais de exatidão de onde viemos e como chegamos ao estado de coisas que vivemos hoje. Podemos estar repetindo experiências inúteis. Também podemos não ter enxergado, em algum lugar do passado recente, algum caminho (se é que existiu) mais adequado a seguir do que este que trilhamos hoje.

Em pouco menos de 20 anos deixamos a era dos produtores para viver a realidade da subvenção pública. De um punhado de agentes endividados, agora somos muitos e reclamamos do governo.

Como se deu essa mudança de sistema? Quais as suas causas e o que isto aponta para o futuro do teatro no Brasil? Pesquisar a história recente do teatro pode ser importante para compreender o que se passa hoje com o nosso mecanismo de produção. Mas, se em nosso país, mal sabemos da história antiga e que já está nos livros...

Tenho seguido a produção de teatro no Rio pelos tijolinhos do jornal de domingo. É um expediente amador e impreciso, mas projeta um cenário um pouco mais real do que pura e simplesmente elucubrar.

Nas últimas 11 semanas estrearam em média (entre sexta e domingo) cerca de 5 espetáculos de teatro profissional adulto nessa cidade. Para um ano de 10 meses (vou ignorar no meu cientificismo amador o fim do ano e o carnaval) com meses de 4 semanas cada um (danem-se igualmente os meses de 5 semanas) estimo que estreamos pelo menos 200 espetáculos em 2010. Usando essas mesmas 11 semanas como referência e sabendo que a média desses espetáculos por final de semana está em torno de 40 (na verdade 43) peças em cartaz, temos que a temporada carioca se renovou 5 vezes ao longo deste mesmo ano. Ou seja, cada peça ficou em cartaz até 4 semanas no máximo, isto é, durante no máximo 2 meses (números médios, é claro, deve haver algum sucesso de anos em cartaz – qual?).

Não sei se a matemática ou a arte da estatística me autorizam a fazer o tipo de projeção que eu fiz. Também não sou capaz de afirmar que 200 novos espetáculos por ano seja um número alto ou baixo demais para uma cidade do tamanho do Rio de Janeiro (e como será este fenômeno em São Paulo? E Curitiba?). Mas penso que, se não é a verdade que as peças ficam 2 meses em cartaz, a verdade deve ser alguma coisa perto desta mentira. Mentira que nos leva a novas ilações e questões. Pois vamos lá.

Que espetáculo mantém o seu nível de investimento público (porque vivemos de dinheiro público) nas oito semanas de vida que lhes damos? Talvez um peça que cobre um ingresso de 100 ou 200 reais. Mas esta peça não existe. Ora, se os governos investem a fundo perdido no teatro (justa medida, é o papel dos governos, não se discute) que ações estamos adotando para esticar a vida útil dos nossos espetáculos e garantir a sobrevivência de seus artistas e técnicos ao longo dos meses do ano quando não estaremos em cartaz? Ora, sempre poderemos trabalhar em outras peças ao longo do período, com tal rotatividade de espetáculos. Será? É isto o que acontece atualmente? Trocamos de peça como quem troca de camisa – está fácil assim? E quantos espetáculos, dessas 200 estréias, contam com mais de 5 atores no seu elenco? Ora, sempre poderemos ir trabalhar na televisão – já que somos muitos, estamos desempregados e ganhamos pouco e a televisão pode suportar uma parte dessa mão-de-obra. Mas aí estaremos resolvendo um problema da televisão. E o nosso, quem resolverá?

Isso para não falar do público, do repertório, da crítica... Na semana passada tratei aqui de um espectador hipotético que tentasse assistir a todos os espetáculos em cartaz no Rio de Janeiro. Muito bem, agora sabemos (ou achamos que sabemos) que esse hipotético cidadão, adulto e que só vai ao teatro entre quinta e domingo, tem 200 peças novas para assistir ao longo de uma temporada. A 10 pratas o ingresso (ele paga meia!) nosso amigo precisa desembolsar 2 mil reais para ver todas elas. Se tiver o dinheiro (o abençoado cidadão – de classe média!) também precisará ser dois. Com 5 estréias por semana, ele vai ter que assistir a pelo menos duas peças num mesmo dia e num mesmo horário para cumprir a missão que lhe dei. O que leva a crer que, se há público para todas essas peças, é porque não há mesmo apenas um público para o teatro carioca, mas vários. O que também sugere que nenhum crítico é capaz de assistir a todas as peças que precisa criticar durante o ano.

Agora chega um pouco de números. Na semana que vem falaremos de outra coisa. Mas em tempo – os editais pululam. E o MinC acabou de lançar um que injeta 10 milhões e 800 mil para produções de teatro, dança e circo. Há faixas de 100, 150 e 200 mil reais para contemplar 82 produções por todo o país.