Gil, está é uma questão que eu me debruço a tempos. Sim faltam salas! Sim o tempo de temporadas precisa aumentar! Sim o público precisa ser estimulado a assistir teatro! Ou melhor, teatros, pois são vários os estilos e gêneros. Mais a conta nunca vai fechar, pois vai continuar faltando espaços para tantas peças que se deseja montar. Em São Paulo mesmo com a grande quantidade de salas, lá eles também reclamam que é pouco. Acontece que lá alguns hotéis tem teatros; quase todos os instituots tem teatros; as redes do SESI e Sesc tem muitos teatros no estado todo; mas, principalmente, grande parte das cias de teatro tem seus próprios espaços teatrais. Na minha análise este último ponto é fundamental. Você vê por exemplo a Armazém Cia de Teatro, eles fazem suas estréias nos teatros da cidade, mas podem continuar com a temporada no seu próprio espaço. É disso que precisamos, que os grupos e cias tenham seus espaços. Outra coisa que eu defendo é que sejam criados aqui prédios (no plural mesmo) como o Centro Cultural São Paulo, onde os grupos que não tem seu espaço podem ensaiar e se apresentar. É um prédio plural (2 teatros, cinema, biblioteca, inúmeras salas de ensaio, etc) que oferece arte e cultura ao público e aos artistas um espaço para experimentação e encenação. Como eu também já disse, Lona Cultural serviu para um momento histórico na cidade do Rio de Janeiro, hoje elas deveriam ser doadas a grupos e a Prefeitura deveria investir em espaços como o Centro Cultural São Paulo. A discussão é boa.
Ney Motta
terça-feira, 24 de maio de 2011
sábado, 21 de maio de 2011
DUAS QUESTÕES – A PRIMEIRA
Respondendo a duas observações feitas pelos leitores a partir do post da semana passada. A de hoje é sobre essa questão da quantidade de peças.
1) O sujeito aqui reclama que eu estaria sugerindo que diminuíssem o número de espetáculos em cartaz no Rio, que eu estou nadando contra a corrente e enfraquecendo o movimento...
Não, não, acho que estou sendo mal compreendido. Esse negócio de blog é legal, mas o espaço nunca é suficiente. Bacana seria uma tese, um livro, sei lá, alguma coisa mais consistente. Mas no momento, é o que temos. Então usemos.
Nunca falei aqui nada contra o número de peças. De repente posso ter dado essa impressão pelo tom algo espantado como me refiro à coisa. Mas é porque eu imaginava menos peças em cartaz e acho que me surpreendi quando comecei a contar. Não sei se 54 espetáculos profissionais adultos (essa é a média do presente mês de maio) por final de semana é um número alto ou baixo para a cidade do Rio de Janeiro. São Paulo, dizem, tem mais de 150. E o fim de semana teatral em São Paulo tem um dia a menos que o nosso. Mas, também, lá também parece ter muito mais salas de espetáculos (ou não?). Quem sabe se tivéssemos mais salas de espetáculos ou tantas quanto eles ainda teríamos mais peças de teatro em cartaz do que São Paulo? Quem sabe?
Comparo com São Paulo e não sei se é a melhor comparação. Ou se deveria estar comparando com Nova Iorque, Paris, Cidade do México, Madri, ou Buenos Aires. Qual dessas cidades se parecerá mais com a nossa em quantidade de peças/habitante interessado em assisti-las? Ou em termos de fomento, em quantidade de grupos e de produtores independentes? Seja como for, não tenho como afirmar se esse número de peças em cartaz aqui é demais ou de menos para os cidadãos cariocas.
O que acho sim, fora do normal (mas o que será o normal?) é o tempo que cada uma dessas peças, em geral, tende a permanecer em cartaz. Senão vejamos.
Considerando os cinco primeiros meses de 2011, o Rio de Janeiro já apresentou ao seu público um número superior a 200 títulos de espetáculos teatrais. Entre os que estrearam este ano, os que vieram do ano passado ou de anos anteriores, reestréias, espetáculos de mostras, produções locais ou de outros estados, etc. Aliás, como deixei de contar algumas semanas, acho que 250 títulos é, na verdade, uma estimativa mais realista.
E só estou falando, bem entendido, de fins de semana. E de teatro adulto. Nada contra os outros dias da semana, nem contra o teatro infantil. Faço isso só para delimitar um pouco a amostragem. (Contando também os infantis, a média de espetáculos no Rio por final de semana é de setenta e poucos).
Se considerarmos que, na cidade toda, contando direitinho, só vamos achar umas 50 salas ou “espaços” em condições de receber esses mesmos espetáculos em cartaz... São cerca de 5 espetáculos por sala. Em cinco meses: cada espetáculo tem exatamente um mês, em média, para se apresentar. Logo, cada peça que ultrapassa esse tempo de permanência (e algumas conseguem) empurra umas tantas outras para novos espaços, para fora do cartaz, para os horários alternativos ou sei mais para onde pode ir uma peça a procura de público nessa cidade. Há falta de salas? Bem, parece evidente que há falta de salas. Mas os espetáculos se acotovelam de fato apenas pela falta de salas? E, se houvesse mais salas, durariam mais tempo em cartaz?
Como quase tudo aqui nesse blog, sem a metodologia adequada, sem números confiáveis, sem uma pesquisa séria e consistente, o que podemos fazer com o que temos, é estimar, imaginar e aproximar nossa imaginação do real.
Se houvesse uma relação mais simples entre o número de salas existente na cidade e a quantidade de espetáculos que produzimos, a tendência seria diminuir o número de espetáculos numa proporção pelo menos assemelhada ao número de salas que se fecham. Ou só aumentar o número de peças na medida em que aumentassem o número de “espaços” para abrigá-las. Não é o que se observa, no entanto. O número de espetáculos este semestre cresceu quase 10% em relação ao semestre passado (de 45 para 50). E a única sala nova que me lembro que abriu nesse mesmo, e há menos de 15 dias, foi o Teatro Poeirinha, em Botafogo, com capacidade para 70 pessoas.
Isso de público também é um indicativo que funciona ao contrário no teatro carioca. No semestre passado a média de público me pareceu (pelo que me diziam os produtores, como é difícil fazer um estudo sem números!) acima da média desse semestre. E, assim como no caso das salas, a produção da cidade parece ter ignorado essa retração de espectadores. E continuou aumentando. E quando vai parar de crescer? E em função do que deve realmente aumentar?
Um elemento importante na elevação da média de espetáculos em cartaz na cidade neste semestre, com o conseqüente aumento no rodízio de peças nas salas disponíveis pode ter sido o maior aporte da verba de fomento do município - a última edição do FATE foi generosa. Isso deu uma estimulada extra na produção. E, além disso, estávamos contando com os editais do governo federal, que estão atrasados até agora. Claro, o edital da Prefeitura não deu conta de tudo. Mas, com projetos em andamento e sem outra saída, muitos produtores podem ter optado por realizar os seus projetos mesmo sem receber os patrocínios que contavam.
Seja quais forem as causas, o fato é que, neste semestre, aumentou a pressão de uns espetáculos sobre os outros, com a conseqüente diminuição das temporadas médias para abaixo das “históricas” 32 semanas. Pode ser sazonal. Pode ser que, no próximo semestre, haja uma retração e voltemos aos números mais “razoáveis” de temporadas anteriores. Mas quem pode considerar saudável um teatro com a maioria das peças se espremendo em temporadas de até dois meses no máximo?
Ou talvez seja mesmo assim no mundo inteiro e nós não tenhamos nada de incomum com relação ao que se faz em outros lugares deste mundo.
1) O sujeito aqui reclama que eu estaria sugerindo que diminuíssem o número de espetáculos em cartaz no Rio, que eu estou nadando contra a corrente e enfraquecendo o movimento...
Não, não, acho que estou sendo mal compreendido. Esse negócio de blog é legal, mas o espaço nunca é suficiente. Bacana seria uma tese, um livro, sei lá, alguma coisa mais consistente. Mas no momento, é o que temos. Então usemos.
Nunca falei aqui nada contra o número de peças. De repente posso ter dado essa impressão pelo tom algo espantado como me refiro à coisa. Mas é porque eu imaginava menos peças em cartaz e acho que me surpreendi quando comecei a contar. Não sei se 54 espetáculos profissionais adultos (essa é a média do presente mês de maio) por final de semana é um número alto ou baixo para a cidade do Rio de Janeiro. São Paulo, dizem, tem mais de 150. E o fim de semana teatral em São Paulo tem um dia a menos que o nosso. Mas, também, lá também parece ter muito mais salas de espetáculos (ou não?). Quem sabe se tivéssemos mais salas de espetáculos ou tantas quanto eles ainda teríamos mais peças de teatro em cartaz do que São Paulo? Quem sabe?
Comparo com São Paulo e não sei se é a melhor comparação. Ou se deveria estar comparando com Nova Iorque, Paris, Cidade do México, Madri, ou Buenos Aires. Qual dessas cidades se parecerá mais com a nossa em quantidade de peças/habitante interessado em assisti-las? Ou em termos de fomento, em quantidade de grupos e de produtores independentes? Seja como for, não tenho como afirmar se esse número de peças em cartaz aqui é demais ou de menos para os cidadãos cariocas.
O que acho sim, fora do normal (mas o que será o normal?) é o tempo que cada uma dessas peças, em geral, tende a permanecer em cartaz. Senão vejamos.
Considerando os cinco primeiros meses de 2011, o Rio de Janeiro já apresentou ao seu público um número superior a 200 títulos de espetáculos teatrais. Entre os que estrearam este ano, os que vieram do ano passado ou de anos anteriores, reestréias, espetáculos de mostras, produções locais ou de outros estados, etc. Aliás, como deixei de contar algumas semanas, acho que 250 títulos é, na verdade, uma estimativa mais realista.
E só estou falando, bem entendido, de fins de semana. E de teatro adulto. Nada contra os outros dias da semana, nem contra o teatro infantil. Faço isso só para delimitar um pouco a amostragem. (Contando também os infantis, a média de espetáculos no Rio por final de semana é de setenta e poucos).
Se considerarmos que, na cidade toda, contando direitinho, só vamos achar umas 50 salas ou “espaços” em condições de receber esses mesmos espetáculos em cartaz... São cerca de 5 espetáculos por sala. Em cinco meses: cada espetáculo tem exatamente um mês, em média, para se apresentar. Logo, cada peça que ultrapassa esse tempo de permanência (e algumas conseguem) empurra umas tantas outras para novos espaços, para fora do cartaz, para os horários alternativos ou sei mais para onde pode ir uma peça a procura de público nessa cidade. Há falta de salas? Bem, parece evidente que há falta de salas. Mas os espetáculos se acotovelam de fato apenas pela falta de salas? E, se houvesse mais salas, durariam mais tempo em cartaz?
Como quase tudo aqui nesse blog, sem a metodologia adequada, sem números confiáveis, sem uma pesquisa séria e consistente, o que podemos fazer com o que temos, é estimar, imaginar e aproximar nossa imaginação do real.
Se houvesse uma relação mais simples entre o número de salas existente na cidade e a quantidade de espetáculos que produzimos, a tendência seria diminuir o número de espetáculos numa proporção pelo menos assemelhada ao número de salas que se fecham. Ou só aumentar o número de peças na medida em que aumentassem o número de “espaços” para abrigá-las. Não é o que se observa, no entanto. O número de espetáculos este semestre cresceu quase 10% em relação ao semestre passado (de 45 para 50). E a única sala nova que me lembro que abriu nesse mesmo, e há menos de 15 dias, foi o Teatro Poeirinha, em Botafogo, com capacidade para 70 pessoas.
Isso de público também é um indicativo que funciona ao contrário no teatro carioca. No semestre passado a média de público me pareceu (pelo que me diziam os produtores, como é difícil fazer um estudo sem números!) acima da média desse semestre. E, assim como no caso das salas, a produção da cidade parece ter ignorado essa retração de espectadores. E continuou aumentando. E quando vai parar de crescer? E em função do que deve realmente aumentar?
Um elemento importante na elevação da média de espetáculos em cartaz na cidade neste semestre, com o conseqüente aumento no rodízio de peças nas salas disponíveis pode ter sido o maior aporte da verba de fomento do município - a última edição do FATE foi generosa. Isso deu uma estimulada extra na produção. E, além disso, estávamos contando com os editais do governo federal, que estão atrasados até agora. Claro, o edital da Prefeitura não deu conta de tudo. Mas, com projetos em andamento e sem outra saída, muitos produtores podem ter optado por realizar os seus projetos mesmo sem receber os patrocínios que contavam.
Seja quais forem as causas, o fato é que, neste semestre, aumentou a pressão de uns espetáculos sobre os outros, com a conseqüente diminuição das temporadas médias para abaixo das “históricas” 32 semanas. Pode ser sazonal. Pode ser que, no próximo semestre, haja uma retração e voltemos aos números mais “razoáveis” de temporadas anteriores. Mas quem pode considerar saudável um teatro com a maioria das peças se espremendo em temporadas de até dois meses no máximo?
Ou talvez seja mesmo assim no mundo inteiro e nós não tenhamos nada de incomum com relação ao que se faz em outros lugares deste mundo.
terça-feira, 10 de maio de 2011
Voltando... e voltando
Estive fora esse tempo todo porque estava às voltas com LINDA, que estreou, fez uma primeira temporada no Espaço SESC Copa, terminou a primeira temporada e se prepara para a segunda, oxalá assim seja e seja boa, no Teatro dos Quatro, na Gávea, às terças e quartas, 19 h, a partir de 07 de junho. LINDA é uma boa peça e um espetáculo bom. Estreou mal, não fizemos uma boa estréia e sabemos disso. No dia seguinte já era ótima, mas a estréia não foi. Não tínhamos nunca feito com público, erramos a mão, o tom... Enfim. E pagamos o preço de uma estréia ruim: pouca gente de teatro foi assistir a essa primeira temporada, não tivemos crítica, essas coisas. Aliás, tivemos sim, uma crítica do Macksen Luiz no blog dele, ia me esquecendo. Nem boa nem má. E ele viu depois da estréia num dia que, pra nós, foi bom.
É curioso como nós, de teatro, não entendemos muito de teatro. Tirando talvez um crítico ou outro, tirando um diretor ou outro, algum ator mais estudioso, dedicado. Digo "não entendemos de teatro", mas não estou me referindo só aos assuntos favoritos até aqui neste blog - números, estatísticas, história recente, essas coisas. Digo que não entendemos nada quanto ao "objeto" propriamente. Foi uma lenha ensaiar LINDA. Eu não dirigia uma peça há mais de uma década, achava que era como bicicleta, que a gente não esquece como anda nem depois que morre. Mas não é. No primeiro mês ensaio ainda consegui me virar. Mas em algum momento deu um tilti e, caraca!, eu tinha esquecido tudo. Nem tanto a parte teórica, essa eu continuei exercitando ao longo dos anos, mas parte prática... meu Deus do Céu, era ruim demais da conta aquilo, seu. Salvou-me do desespero total o "colega" Aderbal, este sim homem dos mais entendedores do assunto em atividade por aí (que, aliás, também estréia um espetáculo dele nessa quinta-feira).
Produzir teatro se tornou uma coisa relativamente comum nos dias que correm. Todo mundo reclama que está difícil arrumar patrocínio e que não se tem dinheiro. Mas no século passado era muito pior. Nunca antes na história desse país... A média de espetáculos adultos profissionais em cartaz no Rio de Janeiro nesses dois últimos meses ultrapassou as 50 peças. Semana passada eram 63( só no fim de semana). E, com todas as dificuldades, as pessoas continuam estreando. E graças a Deus a grande maioria dos espetáculos não vai muito longe. Digo "graças a Deus" (com uma grande dose de ironia, claro) porque não haveria sala pra tanta peça junta, se elas não morressem logo (quanto mais público). Quando alguém se der à pachorra de fazer um estudo sério (ou quando se criar um instituto que se proponha a estudos sérios) deverá descobrir que o teatro se popularizou mais nos últimos anos como coisa a ser produzida do que a ser assistida. Duvido que o público das peças cresceu (se é que cresceu) na mesma proporção do número espetáculos que vão entrando e saindo do cartaz.
Produzir peças se tornou uma obsessão e uma necessidade imperiosa do sistema. E nisso, a qualidade, o tempo que temos para treinar e aprender a fazer peças melhores, bom, isso vai pra cucuia. O que importa é fazer. Conseguir uma grana, fazer a peça, matar aquele público (quando tem) fazer outra peça, conseguir outra grana... E por aí vai. E, mesmo quando não temos grana de patrocínio, produzimos com a lógica dos que têm, que se tornou a lógica-modelo de mercado. Nisso, a nossa acuidade dança. Quem treina? Quem critica? Quem é capaz de inventar com tanta peça uma atrás da outra pra fazer? Tenho um amigo cenógrafo que, até o mês de março, já havia estreado nada menos que 8 peças no Rio de Janeiro. Pô, vai ser criativo assim lá na... Tenho outro amigo que é diretor que, a essa altura do ano, deve estar pela sua sétima, oitava encenação também. E tudo peça descartável. Tudo peça que, no semestre que vem, ninguém nem lembrará que já existiu. Só no final do ano, quando saírem as indicações a prêmios é que alguém sentirá falta - "Pô, mas não me indicaram". "Não, cidadão, eu sequer te assisti. Não houve como."
E dá pro crítico ser bom no meio de tanta coisa pra ver? E dá pro artista fazer um trabalho bem feito? E dá pra sobreviver com a fórmula produzir rápido e com pouca gente (pra aproveitar a grana que tem) antes da próxima peça?
Foi atrás desse bonde que eu fui, sem dúvida. Uma peça com dois atores, pra produzir com o dinheiro que tem (e não tem) e no tempo que der. Claro, depois de dez anos sem encenar, eu precisava de um tempo bacana pra ensaio, pra redescobrir do que se trata o teatro, como faz e por que. Aí, quando me apertaram o tempo (um dia, o produtor apareceu e disse: arrumamos o Sesc e é pra daqui a tantos dias, obaaaa!!!) nesse momento faltou o estofo e quase afundei... E quantos outros não estarão afundando por aí, sem um gênio que lhes estenda a mão?
Perdemos a capacidade crítica, afinal (se um dia a tivemos). Que o público não saiba a diferença entre o bom e o mau teatro, ou, no mínimo, a diferença entre teatro e não-teatro, vá lá. Não são obrigados a saber disso, aliás pagam para não saber, só para desfrutar. Mas que nós, profissionais do ramo, não saibamos, isto sim é um problemaço. É muita peça, muita falta de referência, muita produção travestida de arte, muita lábia, lobby, muito túnel e pouca luz. Ou seguramos o bonde, ou vamos bater no próximo poste (com Ronaldinho e tudo).
É curioso como nós, de teatro, não entendemos muito de teatro. Tirando talvez um crítico ou outro, tirando um diretor ou outro, algum ator mais estudioso, dedicado. Digo "não entendemos de teatro", mas não estou me referindo só aos assuntos favoritos até aqui neste blog - números, estatísticas, história recente, essas coisas. Digo que não entendemos nada quanto ao "objeto" propriamente. Foi uma lenha ensaiar LINDA. Eu não dirigia uma peça há mais de uma década, achava que era como bicicleta, que a gente não esquece como anda nem depois que morre. Mas não é. No primeiro mês ensaio ainda consegui me virar. Mas em algum momento deu um tilti e, caraca!, eu tinha esquecido tudo. Nem tanto a parte teórica, essa eu continuei exercitando ao longo dos anos, mas parte prática... meu Deus do Céu, era ruim demais da conta aquilo, seu. Salvou-me do desespero total o "colega" Aderbal, este sim homem dos mais entendedores do assunto em atividade por aí (que, aliás, também estréia um espetáculo dele nessa quinta-feira).
Produzir teatro se tornou uma coisa relativamente comum nos dias que correm. Todo mundo reclama que está difícil arrumar patrocínio e que não se tem dinheiro. Mas no século passado era muito pior. Nunca antes na história desse país... A média de espetáculos adultos profissionais em cartaz no Rio de Janeiro nesses dois últimos meses ultrapassou as 50 peças. Semana passada eram 63( só no fim de semana). E, com todas as dificuldades, as pessoas continuam estreando. E graças a Deus a grande maioria dos espetáculos não vai muito longe. Digo "graças a Deus" (com uma grande dose de ironia, claro) porque não haveria sala pra tanta peça junta, se elas não morressem logo (quanto mais público). Quando alguém se der à pachorra de fazer um estudo sério (ou quando se criar um instituto que se proponha a estudos sérios) deverá descobrir que o teatro se popularizou mais nos últimos anos como coisa a ser produzida do que a ser assistida. Duvido que o público das peças cresceu (se é que cresceu) na mesma proporção do número espetáculos que vão entrando e saindo do cartaz.
Produzir peças se tornou uma obsessão e uma necessidade imperiosa do sistema. E nisso, a qualidade, o tempo que temos para treinar e aprender a fazer peças melhores, bom, isso vai pra cucuia. O que importa é fazer. Conseguir uma grana, fazer a peça, matar aquele público (quando tem) fazer outra peça, conseguir outra grana... E por aí vai. E, mesmo quando não temos grana de patrocínio, produzimos com a lógica dos que têm, que se tornou a lógica-modelo de mercado. Nisso, a nossa acuidade dança. Quem treina? Quem critica? Quem é capaz de inventar com tanta peça uma atrás da outra pra fazer? Tenho um amigo cenógrafo que, até o mês de março, já havia estreado nada menos que 8 peças no Rio de Janeiro. Pô, vai ser criativo assim lá na... Tenho outro amigo que é diretor que, a essa altura do ano, deve estar pela sua sétima, oitava encenação também. E tudo peça descartável. Tudo peça que, no semestre que vem, ninguém nem lembrará que já existiu. Só no final do ano, quando saírem as indicações a prêmios é que alguém sentirá falta - "Pô, mas não me indicaram". "Não, cidadão, eu sequer te assisti. Não houve como."
E dá pro crítico ser bom no meio de tanta coisa pra ver? E dá pro artista fazer um trabalho bem feito? E dá pra sobreviver com a fórmula produzir rápido e com pouca gente (pra aproveitar a grana que tem) antes da próxima peça?
Foi atrás desse bonde que eu fui, sem dúvida. Uma peça com dois atores, pra produzir com o dinheiro que tem (e não tem) e no tempo que der. Claro, depois de dez anos sem encenar, eu precisava de um tempo bacana pra ensaio, pra redescobrir do que se trata o teatro, como faz e por que. Aí, quando me apertaram o tempo (um dia, o produtor apareceu e disse: arrumamos o Sesc e é pra daqui a tantos dias, obaaaa!!!) nesse momento faltou o estofo e quase afundei... E quantos outros não estarão afundando por aí, sem um gênio que lhes estenda a mão?
Perdemos a capacidade crítica, afinal (se um dia a tivemos). Que o público não saiba a diferença entre o bom e o mau teatro, ou, no mínimo, a diferença entre teatro e não-teatro, vá lá. Não são obrigados a saber disso, aliás pagam para não saber, só para desfrutar. Mas que nós, profissionais do ramo, não saibamos, isto sim é um problemaço. É muita peça, muita falta de referência, muita produção travestida de arte, muita lábia, lobby, muito túnel e pouca luz. Ou seguramos o bonde, ou vamos bater no próximo poste (com Ronaldinho e tudo).
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
MEU AMIGO GUILHERME
Essa semana passou aqui em casa o meu amigo Guilherme Diniz. Grande Guilherme Diniz, artista plástico, dos bons, formado na EBA da UFRJ, colega de alojamento do Fundão, mais do que isso, amigo de juventude de Além Paraíba. Grande Além Paraíba, como diz o poeta, cidade de onde já saíram tantos grandes valores e de onde ainda sairão muitos outros mais (ninguém fica lá). Guilherme Diniz, petista das primeiras horas, ex-vereador alemparaibano, contestador, brigão, brigou até com o PT, saiu, foi dar no PSTU, hoje eu não sei com quem anda flertando o Guilherme, esqueci de perguntar, falamos de tantos assuntos, dois anos que não nos encontrávamos, não há tempo pra lembrar de tudo.
Grande Guilherme, quebrando a cabeça, artista plástico no Brasil, morando em Além Paraíba, Angustura pra ser mais exato, não é nada fácil, estamos sempre sem dinheiro, não é fácil arrumar dinheiro. Também fareja os editais, conhece os editais (há editais para as artes plásticas também, claro, há editais para pintar o sete) e Minas tem ainda a lei Robin Hood, isenção fiscal, mesmo lance. Guilherme sempre me atualiza em relação às artes plásticas, eu sou uma besta dramática, sei do teatro e olhe lá. Me explicou sobre as Câmaras Setoriais, que o governo tenta que município, estado e federação falem a mesma língua, claro, é como tem que ser, um precisa saber do outro, não tem como.
Mas quando eu conto as nossas peculiaridades, como é, como vive o teatro, é difícil entender, mesmo para o brilhante Guilherme (Guilherme é brilhante, tem grandes idéias para a arte e a cultura no Brasil, mora em Angustura, ninguém lhe presta atenção, este é o mal do país). Então eu explico, tento explicar, não sei se sou claro, sou repetitivo, mas as pessoas só entendem quando repetimos muitas vezes a mesma cantilena. Ninguém aprende pensando, aprende de tanto escutar.
O teatro, Guilherme, são zilhões de projetos, muitos, inúmeros, infindáveis projetos. Não peças, não espetáculos nem intenções de espetáculos, mas projetos, propostas que devem estar adequados aos editais dos governos e às empresas. Por exemplo, para usar uma imagem da gente da roça. Eu planto tomate, a minha família sempre plantou tomate, entendemos tudo sobre tomate, a cor, o cheiro, o sabor. Por exemplo. Mas este ano não há ninguém interessado no nosso tomate no Ministério da Agricultura. Então plantamos caqui, que parece tomate, mas é mais bonito e é doce. – Mas como? – pergunta o Guilherme – Tomate é fundamental para a alimentação, para a saúde, não há povo que chegue à maturidade sem comer tomate. E eu respondo (e já sei que ele não vai entender, vou ter que repetir cem vezes isto): – Mas o que dá mídia esse ano é caqui.
E essa é só uma das distorções. Zilhões de projetos disputando o dinheiro à tapa. E não só o dinheiro, mas os teatros, as platéias, o pouco espaço que há nos jornais (“nos”? Mas que plural é esse para jornal na cidade do Rio de Janeiro, meu Deus?). E atores a rodo. Como nunca antes na história desse país. Os atores sobram, pululam, gritam no brejo como pererecas. Misturam-se profissionais, amadores, modelos, há de tudo um muito. Profissionais ficam anos sem trabalhar, amadores também, modelos também, todos ficamos. Anos esperando uma oportunidade. Então toca-lhe a fazer projetos, apresentar projetos, jogar projetos pro alto – o que Deus pegar é dele, o que cair no chão vamos ter que tentar produzir nós mesmos.
E as distorções, muitas, se sobrepondo, se superpondo e se acavalando. Um sujeito que leva dez anos pra aprovar um projeto no CCBB. Um outro sujeito que aprova dois projetos por ano no mesmo lugar. O primeiro é um incompetente? Não, o segundo é que conhece alguém quente. Mas onde há tanta pressão não há tempo para pensar, refletir, examinar, vale o soco, o pontapé e a cusparada. Logo, vale a mãozinha amiga também. Assim terminamos o ano passado, assim começamos o outro.
E o pior, Guilherme – ainda está aí, ouvindo? O teatro não é uma finalidade em si. A finalidade não é a obra que se produz, sua continuidade, sua oportunidade, sua legitimidade, seus valores estéticos, éticos, escambais. A finalidade é outra, é paa além do teatro. A finalidade é prover a tevê. É chegar à tevê, ou se justificar para a tevê, ou se utilizar da popularidade alcançada pela tevê. Ou – talvez, coitados, também é possível – tentar sobreviver sem a tevê.
Esse ponto é mais difícil de explicar. Mas tentemos. Com outra imagem da roça. Quando um sujeito pesca, sua intenção é vender o produto da pesca. E viver da pesca, alimentar a si mesmo e à família com a pesca, e preparar a próxima temporada de pesca. Mas aqui é como se o camarada pescasse simplesmente para estar no rio, seguindo a corrente em direção ao mar. Vai faminto, vai brigando contra as intempéries, vai tomando chuva e tomando sol. Não importa os peixes que vai pescando, é uma pesca esportiva, nada mais.
Porque no fim do rio ele vislumbra o mar. O grande mar. No mar pode não haver nada além de mais fome e ainda mais sede, naquele mundaréu de água que nunca se acaba. Mas também pode haver cardumes de baleias, e sereias que encantam, e baús de tesouros no fundo. Outros acharam todas essas coisas. Então, é claro que nós também vamos encontrar.
Grande Guilherme, quebrando a cabeça, artista plástico no Brasil, morando em Além Paraíba, Angustura pra ser mais exato, não é nada fácil, estamos sempre sem dinheiro, não é fácil arrumar dinheiro. Também fareja os editais, conhece os editais (há editais para as artes plásticas também, claro, há editais para pintar o sete) e Minas tem ainda a lei Robin Hood, isenção fiscal, mesmo lance. Guilherme sempre me atualiza em relação às artes plásticas, eu sou uma besta dramática, sei do teatro e olhe lá. Me explicou sobre as Câmaras Setoriais, que o governo tenta que município, estado e federação falem a mesma língua, claro, é como tem que ser, um precisa saber do outro, não tem como.
Mas quando eu conto as nossas peculiaridades, como é, como vive o teatro, é difícil entender, mesmo para o brilhante Guilherme (Guilherme é brilhante, tem grandes idéias para a arte e a cultura no Brasil, mora em Angustura, ninguém lhe presta atenção, este é o mal do país). Então eu explico, tento explicar, não sei se sou claro, sou repetitivo, mas as pessoas só entendem quando repetimos muitas vezes a mesma cantilena. Ninguém aprende pensando, aprende de tanto escutar.
O teatro, Guilherme, são zilhões de projetos, muitos, inúmeros, infindáveis projetos. Não peças, não espetáculos nem intenções de espetáculos, mas projetos, propostas que devem estar adequados aos editais dos governos e às empresas. Por exemplo, para usar uma imagem da gente da roça. Eu planto tomate, a minha família sempre plantou tomate, entendemos tudo sobre tomate, a cor, o cheiro, o sabor. Por exemplo. Mas este ano não há ninguém interessado no nosso tomate no Ministério da Agricultura. Então plantamos caqui, que parece tomate, mas é mais bonito e é doce. – Mas como? – pergunta o Guilherme – Tomate é fundamental para a alimentação, para a saúde, não há povo que chegue à maturidade sem comer tomate. E eu respondo (e já sei que ele não vai entender, vou ter que repetir cem vezes isto): – Mas o que dá mídia esse ano é caqui.
E essa é só uma das distorções. Zilhões de projetos disputando o dinheiro à tapa. E não só o dinheiro, mas os teatros, as platéias, o pouco espaço que há nos jornais (“nos”? Mas que plural é esse para jornal na cidade do Rio de Janeiro, meu Deus?). E atores a rodo. Como nunca antes na história desse país. Os atores sobram, pululam, gritam no brejo como pererecas. Misturam-se profissionais, amadores, modelos, há de tudo um muito. Profissionais ficam anos sem trabalhar, amadores também, modelos também, todos ficamos. Anos esperando uma oportunidade. Então toca-lhe a fazer projetos, apresentar projetos, jogar projetos pro alto – o que Deus pegar é dele, o que cair no chão vamos ter que tentar produzir nós mesmos.
E as distorções, muitas, se sobrepondo, se superpondo e se acavalando. Um sujeito que leva dez anos pra aprovar um projeto no CCBB. Um outro sujeito que aprova dois projetos por ano no mesmo lugar. O primeiro é um incompetente? Não, o segundo é que conhece alguém quente. Mas onde há tanta pressão não há tempo para pensar, refletir, examinar, vale o soco, o pontapé e a cusparada. Logo, vale a mãozinha amiga também. Assim terminamos o ano passado, assim começamos o outro.
E o pior, Guilherme – ainda está aí, ouvindo? O teatro não é uma finalidade em si. A finalidade não é a obra que se produz, sua continuidade, sua oportunidade, sua legitimidade, seus valores estéticos, éticos, escambais. A finalidade é outra, é paa além do teatro. A finalidade é prover a tevê. É chegar à tevê, ou se justificar para a tevê, ou se utilizar da popularidade alcançada pela tevê. Ou – talvez, coitados, também é possível – tentar sobreviver sem a tevê.
Esse ponto é mais difícil de explicar. Mas tentemos. Com outra imagem da roça. Quando um sujeito pesca, sua intenção é vender o produto da pesca. E viver da pesca, alimentar a si mesmo e à família com a pesca, e preparar a próxima temporada de pesca. Mas aqui é como se o camarada pescasse simplesmente para estar no rio, seguindo a corrente em direção ao mar. Vai faminto, vai brigando contra as intempéries, vai tomando chuva e tomando sol. Não importa os peixes que vai pescando, é uma pesca esportiva, nada mais.
Porque no fim do rio ele vislumbra o mar. O grande mar. No mar pode não haver nada além de mais fome e ainda mais sede, naquele mundaréu de água que nunca se acaba. Mas também pode haver cardumes de baleias, e sereias que encantam, e baús de tesouros no fundo. Outros acharam todas essas coisas. Então, é claro que nós também vamos encontrar.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
sábado, 11 de dezembro de 2010
MUDANÇAS DA LEI ROUANET e outro assunto
1
Não estou tão por dentro como gostaria estar da Nova Lei de Fomento do Governo Federal (ainda será chamada de Nova Lei Rouanet depois de sancionada?). Mas vou estudar, vou estudar. Tenho aqui algumas dúvidas e comentários, talvez alguém também me ajude. Entendi a idéia de estabelecer faixas de patrocínio. Mas não sei se entendi tirarem a possibilidade da faixa de 100%. Imagino uns casos.
Uma hipotética atriz, muito famosa e com muitos bons contatos entre as empresas patrocinadoras de cultura, apresenta ao MinC um projeto para um monólogo que custa 1 milhão e meio de reais. Pela Lei atual, o máximo que o parecerista do MinC pode fazer, constatando que o projeto esteja (e estará) acima dos padrões aceitáveis para monólogos de atrizes famosas e bem relacionadas, o máximo que ele fará será cortar os itens que lhe pareçam superorçados. Digamos que ele corte 500 mil (números redondos, múltiplos de 5 e 10, facilitam as contas na cabeça das pessoas). O mais que o parecerista pode fazer pela regra atual é liberar o restante milhão para captação com isenção total para o patrocinador interessado. Desperdício de dinheiro público, seguramente.
O que muda na nova regra? Pela nova regra o parecerista (ou seu equivalente) não apenas poderá cortar os 500 mil do monólogo da atriz perdulária, como também autorizar para captação uma faixa inferior ao valor do projeto como ficou orçado (por exemplo a faixa mais baixa: 40%). A atriz sai do processo com uma autorização para captar 400 mil reais para montar o seu monólogo de 1 milhão e meio, e se vira pra conseguir o resto com os setores de marketing que conhece das empresas que gostam de patrocinar atrizes famosas (se de fato ela precisar do resto, mas algum jeito dará). O governo deixou de desperdiçar uma grana com este projeto absurdo. Ótimo. Até aí tudo bem.
Mas (e sempre há um “mas”) se ao invés de uma famosa atriz bem relacionada, fosse uma atriz desconhecida e sem nenhum conhecido nas empresas que patrocinam, com um monólogo na base dos 150 mil? Bom, pelas regras atuais o parecerista também o máximo que pode fazer é, verificando alguma incorreção ou imperfeição nos valores propostos, cortar as gorduras do pobre orçamento. Cortou 50 mil (para ficar na proporção com o da primeira atriz hipotética) e aprovou os outros 100 para captação integral. A atriz sai com a publicação do Diário Oficial debaixo do braço e vai à luta. Conseguirá os 100? Não sabemos. Como é desconhecida e não conhece ninguém (e supondo támbém que o projeto não siga o modelo de apresentação dos projetos em captação) o mais provável é que desista e que entre num edital dos que existem hoje e realize o projeto com o dinheiro que lhe derem. No entanto, e se aparece uma empresa disposta a bancar o valor total com isenção? Maravilha, ela pega os 100 e monta, com a graça de Deus. Mas...
Pelas novas regras não será mais assim. Pelas novas regras, mesmo que concorde com os 100 mil do orçamento (depois de cortada as gorduras) o parecerista do MinC (ou seu equivalente) só poderá aprovar até o teto de 80% do valor do projeto para desconto do patrocinador. Nossa atriz desconhecida produzirá com 80 mil mesmo que encontre alguém disposto a pagar os 100. Os 20? Vai para o brejo com os outros 50 que já tinham sido cortados lá atrás. Qual é a lógica? A lógica é que, de qualquer modo, é melhor do que produzir com a metade do que não produzir. É uma lógica, sem dúvida. Burra, mas é.
Por falar nisso, a nova Lei também deverá ampliar o dinheiro dos editais. Ou o número deles. Ou as duas coisas, pelo que eu entendi. Porque, se o dinheiro para aplicação direta do governo em projetos culturais vai aumentar (é o que garantem), o processo de concessão do benefício certamente continuará sendo o dos editais (alguém está interessado em rever a política de editais?). Bom, então para terminar, voltemos às nossas atrizes de antes, no mundo hipotético dos novos prováveis editais.
As perguntas finais (de hoje) são: a atriz famosa e seu projeto de milhão poderá recorrer aos novos prováveis editais para compor parte de seu projeto fabuloso? E, se puder (e quem dirá que não e por quê?) quanto poderá ela somar, com verba direta dos editais, aos 400 obtidos indiretamente? E a atriz desconhecida? Também poderá engordar o seu cofrinho desconhecido com a grana dos editais? E vão continuar concorrendo juntas no mundo dos novos editais quando no mundo das empresas e do marketing estão tão absurdamente separadas?
2.
Chegou ao meu conhecimento (eu também virei repórter e não revelo a fonte nem que me matem) que empresários paulistas do setor de teatro (São Paulo é tão diferente do resto do Brasil que possui empresários paulistas do setor de teatro) estão se rebelando contra os patrocínios obtidos através da Lei Rouanet (a atual). Segundo a fonte, os empresários produtores de peças estão dispostos a não receber mais patrocínio pela Lei Federal. Parece que um dos motivos mais fortes para o estranho motim (imagino um artista de Rio Branco lendo sobre isso) é a corrupção no setor de marketing ou coisa que o valha das empresas. Se minha fonte for confiável e se a notícia procede é realmente um escândalo. Sempre se falou (mas até agora ninguém provou, que eu saiba) que rola propina no mundo da intermediação dos patrocínios culturais. Mas que a coisa chegue a esse ponto é sinal de que o barco realmente saiu do controle. A corrupção é uma doença. Mas só quando vira endemia é que nos damos por fartos dela.
Pelo menos serve para que não nos esqueçamos de que corrupção não é sinônimo de poder público. Brasileiro botou na cabeça que só político é que recebe propina. Não é verdade. Estamos cheios de escândalos no setor privado também. É que, como sempre aparece um figurão de algum governo pra pegar um troco, ficamos com essa impressão na cabeça. Corrupção é uma cultura. Ou quebramos a corrente, ou faremos parte dessa cultura mais cedo ou mais tarde. Que os empresários revoltados não fiquem só na fase do beicinho e do “vamos trocar de mal”. Que denunciem e provem. Há muito dinheiro indo para o lugar errado na saúde, na educação, no esporte, na cultura, na alegria e na tristeza. Mudar a lei ajuda. Mas combater o meliante também faz parte de policiar.
Não estou tão por dentro como gostaria estar da Nova Lei de Fomento do Governo Federal (ainda será chamada de Nova Lei Rouanet depois de sancionada?). Mas vou estudar, vou estudar. Tenho aqui algumas dúvidas e comentários, talvez alguém também me ajude. Entendi a idéia de estabelecer faixas de patrocínio. Mas não sei se entendi tirarem a possibilidade da faixa de 100%. Imagino uns casos.
Uma hipotética atriz, muito famosa e com muitos bons contatos entre as empresas patrocinadoras de cultura, apresenta ao MinC um projeto para um monólogo que custa 1 milhão e meio de reais. Pela Lei atual, o máximo que o parecerista do MinC pode fazer, constatando que o projeto esteja (e estará) acima dos padrões aceitáveis para monólogos de atrizes famosas e bem relacionadas, o máximo que ele fará será cortar os itens que lhe pareçam superorçados. Digamos que ele corte 500 mil (números redondos, múltiplos de 5 e 10, facilitam as contas na cabeça das pessoas). O mais que o parecerista pode fazer pela regra atual é liberar o restante milhão para captação com isenção total para o patrocinador interessado. Desperdício de dinheiro público, seguramente.
O que muda na nova regra? Pela nova regra o parecerista (ou seu equivalente) não apenas poderá cortar os 500 mil do monólogo da atriz perdulária, como também autorizar para captação uma faixa inferior ao valor do projeto como ficou orçado (por exemplo a faixa mais baixa: 40%). A atriz sai do processo com uma autorização para captar 400 mil reais para montar o seu monólogo de 1 milhão e meio, e se vira pra conseguir o resto com os setores de marketing que conhece das empresas que gostam de patrocinar atrizes famosas (se de fato ela precisar do resto, mas algum jeito dará). O governo deixou de desperdiçar uma grana com este projeto absurdo. Ótimo. Até aí tudo bem.
Mas (e sempre há um “mas”) se ao invés de uma famosa atriz bem relacionada, fosse uma atriz desconhecida e sem nenhum conhecido nas empresas que patrocinam, com um monólogo na base dos 150 mil? Bom, pelas regras atuais o parecerista também o máximo que pode fazer é, verificando alguma incorreção ou imperfeição nos valores propostos, cortar as gorduras do pobre orçamento. Cortou 50 mil (para ficar na proporção com o da primeira atriz hipotética) e aprovou os outros 100 para captação integral. A atriz sai com a publicação do Diário Oficial debaixo do braço e vai à luta. Conseguirá os 100? Não sabemos. Como é desconhecida e não conhece ninguém (e supondo támbém que o projeto não siga o modelo de apresentação dos projetos em captação) o mais provável é que desista e que entre num edital dos que existem hoje e realize o projeto com o dinheiro que lhe derem. No entanto, e se aparece uma empresa disposta a bancar o valor total com isenção? Maravilha, ela pega os 100 e monta, com a graça de Deus. Mas...
Pelas novas regras não será mais assim. Pelas novas regras, mesmo que concorde com os 100 mil do orçamento (depois de cortada as gorduras) o parecerista do MinC (ou seu equivalente) só poderá aprovar até o teto de 80% do valor do projeto para desconto do patrocinador. Nossa atriz desconhecida produzirá com 80 mil mesmo que encontre alguém disposto a pagar os 100. Os 20? Vai para o brejo com os outros 50 que já tinham sido cortados lá atrás. Qual é a lógica? A lógica é que, de qualquer modo, é melhor do que produzir com a metade do que não produzir. É uma lógica, sem dúvida. Burra, mas é.
Por falar nisso, a nova Lei também deverá ampliar o dinheiro dos editais. Ou o número deles. Ou as duas coisas, pelo que eu entendi. Porque, se o dinheiro para aplicação direta do governo em projetos culturais vai aumentar (é o que garantem), o processo de concessão do benefício certamente continuará sendo o dos editais (alguém está interessado em rever a política de editais?). Bom, então para terminar, voltemos às nossas atrizes de antes, no mundo hipotético dos novos prováveis editais.
As perguntas finais (de hoje) são: a atriz famosa e seu projeto de milhão poderá recorrer aos novos prováveis editais para compor parte de seu projeto fabuloso? E, se puder (e quem dirá que não e por quê?) quanto poderá ela somar, com verba direta dos editais, aos 400 obtidos indiretamente? E a atriz desconhecida? Também poderá engordar o seu cofrinho desconhecido com a grana dos editais? E vão continuar concorrendo juntas no mundo dos novos editais quando no mundo das empresas e do marketing estão tão absurdamente separadas?
2.
Chegou ao meu conhecimento (eu também virei repórter e não revelo a fonte nem que me matem) que empresários paulistas do setor de teatro (São Paulo é tão diferente do resto do Brasil que possui empresários paulistas do setor de teatro) estão se rebelando contra os patrocínios obtidos através da Lei Rouanet (a atual). Segundo a fonte, os empresários produtores de peças estão dispostos a não receber mais patrocínio pela Lei Federal. Parece que um dos motivos mais fortes para o estranho motim (imagino um artista de Rio Branco lendo sobre isso) é a corrupção no setor de marketing ou coisa que o valha das empresas. Se minha fonte for confiável e se a notícia procede é realmente um escândalo. Sempre se falou (mas até agora ninguém provou, que eu saiba) que rola propina no mundo da intermediação dos patrocínios culturais. Mas que a coisa chegue a esse ponto é sinal de que o barco realmente saiu do controle. A corrupção é uma doença. Mas só quando vira endemia é que nos damos por fartos dela.
Pelo menos serve para que não nos esqueçamos de que corrupção não é sinônimo de poder público. Brasileiro botou na cabeça que só político é que recebe propina. Não é verdade. Estamos cheios de escândalos no setor privado também. É que, como sempre aparece um figurão de algum governo pra pegar um troco, ficamos com essa impressão na cabeça. Corrupção é uma cultura. Ou quebramos a corrente, ou faremos parte dessa cultura mais cedo ou mais tarde. Que os empresários revoltados não fiquem só na fase do beicinho e do “vamos trocar de mal”. Que denunciem e provem. Há muito dinheiro indo para o lugar errado na saúde, na educação, no esporte, na cultura, na alegria e na tristeza. Mudar a lei ajuda. Mas combater o meliante também faz parte de policiar.
domingo, 5 de dezembro de 2010
MIX
I.
Essa semana o jornal da cidade que eu uso pra fazer meu somatório de espetáculos em cartaz “esqueceu” (não sei que outro nome teria isso) de relacionar as peças infantis em cartaz na sua coluna de serviços do seu Segundo Caderno. Ou trocou os infantis de lugar e não avisou. Amanhã devem chover cartas e emails à redação do jornal reclamando contra o “acidente”. Curioso que o mesmo jornal estampava, no mesmo Caderno, uma entrevista de página inteira com o atual Ministro da Cultura. Que rata! Será que o Ministro e a equipe do Ministro e os amigos e inimigos do Ministro, seus críticos, seus desafetos, seus admiradores, seus seguidores e puxa-sacos, será que esse pessoal todo notou? Ou este é um problema “menor” que só nós do teatro infantil é que reparamos? Tudo bem que esse domingo deu praia (e que praia!) no Rio de Janeiro. Mas não precisava matar o teatro infantil por isso. Há um artigo, se não me engano do Peter Brook, ou assemelhado, que fala das conseqüências de um hipotético fechamento dos teatros na França e que isso mal seria notado pela população. Está aí, no “esquecimento” do jornal da cidade, uma oportunidade pra conferir, pelo menos em parte, a catástrofe (para nós) sugerida pelo Peter.
Os infantis estavam lá... Meio escondidos, mas estavam. Eu que não vi. Mas a simples hipótese de que o úncio jornal da cidade que presta esse erre nisso é tão cruel que... (E erra.)
II.
Essa é a temporada de caça aos editais. Empresas e governos lançam os anzóis e nós é que ficamos pescando. Muita incompetência na hora de bolar os ditos e malditos. Alguém precisa reunir o pessoal do marketing das empresas e conversar com eles. Fica muito difícil entender o que eles querem quando encontramos escrito no edital de patrocínio cultural de uma determinada empresa que eles privilegiam projetos que favoreçam a “busca pela democratização e promoção do acesso à cultura pelo desenvolvimento sócio esportivo do Brasil” (o que significa? Peças sobre a Copa do Mundo e as Olimpíadas?). Também dou um doce para quem traduzir essa dica noutro edital de uma importante patrocinadora da cultura no país, que: “tem como objetivo, selecionar iniciativas culturais que estimulem a fluência comunicativa, a expressão, o acesso, o compartilhamento de informações e conhecimentos e o trabalho colaborativo como condições preciosas para o reconhecimento da influência das práticas culturais no processo de construção de identidades, convivência e desenvolvimento”. Não dá pra ser menos prolixo e mais objetivo? Quando ganha o marketeiro que elabora um edital desses? O dono da empresa entende? Ficam os pobres dos produtores correndo atrás de satisfazer os desejos das empresas patrocinadoras, mas com essa falta de clareza (citei apenas dois pra não ocupar muito espaço, mas são muitos os exemplos) não há tatu que agüente. A impressão é que estão se lixando e que apenas esperam que os projetos resultem bons para a imagem da empresa conforme a onda do momento. Aí vão lançando pelo meio dos editais as palavras e expressões da moda, mais ao menos ao acaso. E tudo vira “responsabilidade social”, “compromisso ambiental”, “inclusão”, “práticas sociais consequentes” e durma-se com um barulho desses.
III.
Sensacional a iniciativa de reunir Eugênio Barba e Aderbal Freire-Filho da maneira como o fez essa semana o Teatro Poeira, em Botafogo, no Rio de Janeiro (a idéia teria sido do Barba, mas o Poeira abraçou e realizou). Cerca de setenta ouvintes e assistentes, entre atores, diretores e autores cariocas, vamos ver o que o encontro repercute ao longo do tempo. E tomara que venham outros. Contribui imensamente para as discussões em torno dos caminhos do teatro no mundo.
Uma das (muitas) reflexões fundamentais é justamente essa que andamos falando aqui, qual seja, sobre o que seja essa difícil e desconhecida arte de “dirigir”. Dois mestres e duas poéticas distintas, dissecadas aos olhos de uma platéia comum, típico encontro pra fazer ou abrir a cabeça da moçada. O teatro não precisa (e nem consegue) ser um só. Mas pode e deve ser feito com um mínimo de conhecimento do assunto. Vamos ver o que rende...
IV.
A propósito de diretores uma dica: o realismo, quando surgiu no teatro, significou uma revolução sim, mas isso foi relativamente breve. Em seguida, um furacão chamado cinema e um tsunami chamado televisão apareceram e mudaram tudo. Esse axioma tem sido dito e repetido de várias formas e por muitos encenadores diferentes durante anos a fio. Mas as pessoas ouvem e não pensam no assunto. Sofrem os atores, coitados, tentando reproduzir no palco as suas vidinhas cotidianas. Sofrem os autores, que vêm suas peças, mesmo as melhores, reduzidas a um papo de comadres. Só os diretores (os ruins) gozam a glória desse teatro mal feito. Como diz um amigo meu: ainda bem que não são médicos, ou matavam seus doentes todos os dias (e não estão matando?).
V.
O carioca inventou o circuito-cidade. A peça estréia num teatro, geralmente produzida com pouca grana, mas também produzida sem a intenção de render dinheiro. Fica duas ou três semanas estacionada ali. Depois não pode mais porque entra outra novidade no lugar. A peça muda de teatro (às vezes até de bairro). Fica mais duas ou três semanas. Um terceiro teatro da cidade será seu destino final. Depois vai para a prateleira (exatamente o mesmo fenômeno do cinema nacional) aguardando festivais e convites esparsos, que podem não vir. Todos sabemos quais três ou quatro teatros compõem este circuito. A peça rende um público, mas pouco dinheiro. Como o patrocínio para produzir também não foi lá essas coisas, pergunta-se: e de que vivem esses moços?
VI.
Como são zilhões os artistas, e como ninguém vive das bilheterias (salvo dois ou três) pulveriza-se o patrocínio para atender ao maior número possível de famintos. É praticamente um bolsa-família do teatro (com a diferença que o bolsa-família leva as famílias para cima e que o bolsa-teatro leva os artistas para o fundo). Não é culpa dos governos que essa política se instaure e prevaleça. É problema dos próprios artistas de teatro que não se mobilizam para resolver ou dar um encaminhamento a essa questão. É bom para o sistema que atores sejam descompromissados com o andamento do seu negócio. Quanto mais os atores estiverem pensando em seus próprios umbigos e menos nas suas questões comuns, melhor. O sistema estimula a competição a qualquer custo e o pensamento auto-centrado. Seria muito perigoso para o sistema que essas pessoas fossem esclarecidas e conscientes de seu lugar nesse mundo. Parece que não temos nenhum inimigo comum. Então, nos cumprimentamos com chutes e cotoveladas.
Essa semana o jornal da cidade que eu uso pra fazer meu somatório de espetáculos em cartaz “esqueceu” (não sei que outro nome teria isso) de relacionar as peças infantis em cartaz na sua coluna de serviços do seu Segundo Caderno. Ou trocou os infantis de lugar e não avisou. Amanhã devem chover cartas e emails à redação do jornal reclamando contra o “acidente”. Curioso que o mesmo jornal estampava, no mesmo Caderno, uma entrevista de página inteira com o atual Ministro da Cultura. Que rata! Será que o Ministro e a equipe do Ministro e os amigos e inimigos do Ministro, seus críticos, seus desafetos, seus admiradores, seus seguidores e puxa-sacos, será que esse pessoal todo notou? Ou este é um problema “menor” que só nós do teatro infantil é que reparamos? Tudo bem que esse domingo deu praia (e que praia!) no Rio de Janeiro. Mas não precisava matar o teatro infantil por isso. Há um artigo, se não me engano do Peter Brook, ou assemelhado, que fala das conseqüências de um hipotético fechamento dos teatros na França e que isso mal seria notado pela população. Está aí, no “esquecimento” do jornal da cidade, uma oportunidade pra conferir, pelo menos em parte, a catástrofe (para nós) sugerida pelo Peter.
Os infantis estavam lá... Meio escondidos, mas estavam. Eu que não vi. Mas a simples hipótese de que o úncio jornal da cidade que presta esse erre nisso é tão cruel que... (E erra.)
II.
Essa é a temporada de caça aos editais. Empresas e governos lançam os anzóis e nós é que ficamos pescando. Muita incompetência na hora de bolar os ditos e malditos. Alguém precisa reunir o pessoal do marketing das empresas e conversar com eles. Fica muito difícil entender o que eles querem quando encontramos escrito no edital de patrocínio cultural de uma determinada empresa que eles privilegiam projetos que favoreçam a “busca pela democratização e promoção do acesso à cultura pelo desenvolvimento sócio esportivo do Brasil” (o que significa? Peças sobre a Copa do Mundo e as Olimpíadas?). Também dou um doce para quem traduzir essa dica noutro edital de uma importante patrocinadora da cultura no país, que: “tem como objetivo, selecionar iniciativas culturais que estimulem a fluência comunicativa, a expressão, o acesso, o compartilhamento de informações e conhecimentos e o trabalho colaborativo como condições preciosas para o reconhecimento da influência das práticas culturais no processo de construção de identidades, convivência e desenvolvimento”. Não dá pra ser menos prolixo e mais objetivo? Quando ganha o marketeiro que elabora um edital desses? O dono da empresa entende? Ficam os pobres dos produtores correndo atrás de satisfazer os desejos das empresas patrocinadoras, mas com essa falta de clareza (citei apenas dois pra não ocupar muito espaço, mas são muitos os exemplos) não há tatu que agüente. A impressão é que estão se lixando e que apenas esperam que os projetos resultem bons para a imagem da empresa conforme a onda do momento. Aí vão lançando pelo meio dos editais as palavras e expressões da moda, mais ao menos ao acaso. E tudo vira “responsabilidade social”, “compromisso ambiental”, “inclusão”, “práticas sociais consequentes” e durma-se com um barulho desses.
III.
Sensacional a iniciativa de reunir Eugênio Barba e Aderbal Freire-Filho da maneira como o fez essa semana o Teatro Poeira, em Botafogo, no Rio de Janeiro (a idéia teria sido do Barba, mas o Poeira abraçou e realizou). Cerca de setenta ouvintes e assistentes, entre atores, diretores e autores cariocas, vamos ver o que o encontro repercute ao longo do tempo. E tomara que venham outros. Contribui imensamente para as discussões em torno dos caminhos do teatro no mundo.
Uma das (muitas) reflexões fundamentais é justamente essa que andamos falando aqui, qual seja, sobre o que seja essa difícil e desconhecida arte de “dirigir”. Dois mestres e duas poéticas distintas, dissecadas aos olhos de uma platéia comum, típico encontro pra fazer ou abrir a cabeça da moçada. O teatro não precisa (e nem consegue) ser um só. Mas pode e deve ser feito com um mínimo de conhecimento do assunto. Vamos ver o que rende...
IV.
A propósito de diretores uma dica: o realismo, quando surgiu no teatro, significou uma revolução sim, mas isso foi relativamente breve. Em seguida, um furacão chamado cinema e um tsunami chamado televisão apareceram e mudaram tudo. Esse axioma tem sido dito e repetido de várias formas e por muitos encenadores diferentes durante anos a fio. Mas as pessoas ouvem e não pensam no assunto. Sofrem os atores, coitados, tentando reproduzir no palco as suas vidinhas cotidianas. Sofrem os autores, que vêm suas peças, mesmo as melhores, reduzidas a um papo de comadres. Só os diretores (os ruins) gozam a glória desse teatro mal feito. Como diz um amigo meu: ainda bem que não são médicos, ou matavam seus doentes todos os dias (e não estão matando?).
V.
O carioca inventou o circuito-cidade. A peça estréia num teatro, geralmente produzida com pouca grana, mas também produzida sem a intenção de render dinheiro. Fica duas ou três semanas estacionada ali. Depois não pode mais porque entra outra novidade no lugar. A peça muda de teatro (às vezes até de bairro). Fica mais duas ou três semanas. Um terceiro teatro da cidade será seu destino final. Depois vai para a prateleira (exatamente o mesmo fenômeno do cinema nacional) aguardando festivais e convites esparsos, que podem não vir. Todos sabemos quais três ou quatro teatros compõem este circuito. A peça rende um público, mas pouco dinheiro. Como o patrocínio para produzir também não foi lá essas coisas, pergunta-se: e de que vivem esses moços?
VI.
Como são zilhões os artistas, e como ninguém vive das bilheterias (salvo dois ou três) pulveriza-se o patrocínio para atender ao maior número possível de famintos. É praticamente um bolsa-família do teatro (com a diferença que o bolsa-família leva as famílias para cima e que o bolsa-teatro leva os artistas para o fundo). Não é culpa dos governos que essa política se instaure e prevaleça. É problema dos próprios artistas de teatro que não se mobilizam para resolver ou dar um encaminhamento a essa questão. É bom para o sistema que atores sejam descompromissados com o andamento do seu negócio. Quanto mais os atores estiverem pensando em seus próprios umbigos e menos nas suas questões comuns, melhor. O sistema estimula a competição a qualquer custo e o pensamento auto-centrado. Seria muito perigoso para o sistema que essas pessoas fossem esclarecidas e conscientes de seu lugar nesse mundo. Parece que não temos nenhum inimigo comum. Então, nos cumprimentamos com chutes e cotoveladas.
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